Os americanos Deafheaven e os dinamarqueses Myrkur deram uma tareia sónica ao público portuense no passado sábado, no Hard Club. Depois da pegada pesada que os Deafheaven deixaram com a actuação no Amplifest, as expectativas eram altas – e corresponderam.

As portas abriram-se com a actuação dramática dos Myrkur, e a sala foi-se enchendo lentamente. Com um tripé de microfone, que na realidade eram dois, construído com um ramo de árvore ao centro do palco, e um ambiente obscuro, os músicos subiram ao palco e viraram-se de costas para o público.

Ainda que se possa dizer que Myrkur é um projecto da vocalista Amalie Brunn, o que se sentiu ao longo do concerto é que o papel dela era mais decorativo do que performático. Talvez porque o novo álbum, “M”, foi produzido por Kristoffer Rygg, dos Ulver. Mas a voz flutuante de Brunn compensava pelo resto. Os músicos que tocavam com ela tinham as caras e corpos sujos de fuligem, num estranho contraste com a presença quase imperial da dinamarquesa, e a entrada foi violenta. Fez-se sentir um black metal à antiga, profundo, rápido, e a transição para um momento mais melódico foi quase natural.

Todo o concerto de Myrkur se pautou por estas oscilações. Do mais gutural e macabro, ao mais folclórico a remeter para o imaginário nórdico. Brunn alternava entre os dois microfones no palco, e em cada um tinha uma voz e postura diferente, em perfeita sintonia com a brutalidade ou com a melancolia da música. A dado momento, quase parecia ouvir-se uma sanfona em palco, num registo épico e medievalesco.

Talvez por cantar na sua língua nativa tudo tivesse uma certa aura mais mística, talvez fosse o vestido que arrastava pelo chão, ou a forma como movimentava os braços quando sacava os gritos mais animalescos do peito. Talvez fosse pela raiva nos olhos do baixista, ou como o cabelo caía por cima dos olhos de Brunn. Os minutos em que Myrkur ocupou o palco tiveram alguma de coisa de mágicos. Só o final é que deixou a desejar: todos se ausentaram de palco menos a cantora e modelo dinamarquesa, que tocou e cantou um solo de piano. Depois de tamanha brutalidade que se ouviu ali em cima, toda a gente esperava um final um pouco mais apoteótico.

Mas quando os Deafheaven, e particularmente o vocalista George Clarke, entraram em palco, houve uma outra onda de energia a encher a Sala 2. Os fãs gritaram e aplaudiram, e nenhum dos seis músicos ficou indiferente – especialmente Clarke. Não se fizeram demorar. O início do concerto foi violento, tal como o de Myrkur. Não deram tempo ao público de acabar de chegar do intervalo e preparar-se para o que aí vinha.

Clarke já é conhecido do público portuense, e talvez por isso estivesse tão à vontade com os fãs que se dobravam por cima do palco. Não tinha medo de os encarar, e assumiu várias vezes uma postura teatral. Entre os headbangs rápidos que espalhavam suor pelo palco e os braços abertos, qual maestro de black metal, o vocalista dos Deafheaven não estava minimamente inibido.

Não é fácil descrever a música dos Deafheaven porque também não é fácil percebê-la. Não é fácil perceber como é que de um black metal absolutamente brutal, mais do que o de Myrkur, se salta tão delicadamente para um post-rock tecnicamente irrepreensível. Na mesma música, jurei ouvir os italianos The Secret, com o seu post-hardcore caótico, e os americanos Godspeed You! Black Emperor. Escrito não faz sentido, mas vivido sim.

Nas pausas entre os cenários mais obscuros, quase de pesadelo, ouvia-se um shoegaze à anos 80. Diga-se que da postura dos shoegazers Clarke nada tem. Passeava-se pelo palco e pelos olhares dos fãs. Mas a ternura daquelas pausas permitia que se respirasse na sala. Talvez os americanos tenham percebido que se mantivessem aquele ritmo musculado durante toda a duração de um concerto, que alguém ia acabar por cair para o lado na plateia.

Musicalmente falando, “Baby Blue”, do novo álbum “New Bermuda”, foi provavelmente o ponto alto da noite. Uma introdução lenta e em crescendo, e quando já todos se preparavam para uma explosão sónica que devolvesse o cenário do black metal, os Deafheaven fizeram diferente. Há qualquer coisa de hardcore em “Baby Blue”, qualquer coisa de metal apocalíptico, e qualquer coisa de melancólico. A voz de Clarke é imutável, mas esta música foi provavelmente a que mais se destacou das restantes da noite.

“I gotta tell you guys, I fucking love playing here! And tomorrow we have a day off, so we’ll be going out tonight, so if you see us come say hi.” Não é esta a postura que se espera de um vocalista de uma banda de black metal. Mas George Clarke contraria estes estereótipos constantemente, e de formas cada vez mais criativas.

O final do concerto foi absolutamente épico. “If you know this one, get up here!”. Houve um, dois, três fãs a subir ao palco para depois saltarem por cima da plateia. Quando o primeiro saltou, Clarke encarou-o com seriedade. E depois abraçou-o com força e devolveu-o ao público. O mesmo aconteceu com os outros dois, como se de grandes amigos se tratassem. E a dada altura, começou a ouvir-se “Jump! Jump!”. Clarke virou-se de costas, e abriu os braços, como se derrotado por um concerto tão brutal. Mas esperou que a música lhe desse a deixa, e saltou. Fez um salto de fé, de costas, sobre os seus fãs absolutamente extasiados. Não me lembro de ver alguém afastar-se tanto da sua posição inicial enquanto fazia crowdsurfing. Mas foi devolvido, inteiro e de pé, ao palco. E quando voltou a endireitar-se, foi ele próprio que atirou o microfone para a plateia.

Apertaram-se mãos, deram-se baquetas, torceram-se abraços. De novo, esta não é uma postura que se espere de uma banda de black metal. Mas também, definir os Deafheaven tão somente como “black metal” é extremamente redutor do que estes homens criam em palco. E mostraram, de novo, que não é precisa corpse paint para se ser absolutamente aterrorizante.