Muito tempo a riffar, muito tempo a jammar, os Dead Meadow trilharam, durante mais de uma década, pelos caminhos do psicadélico espacial sempre com um toque terreno de quem parou o carro no nada para olhar o nada que serve de céu. “Warble Womb” é o regresso trôpego a uma sobriedade adiada, feito com a classe de quem já conhece os meandros do deambular pela harmonia e agora se dedica à melodia.

É o toque mais evidentemente diferente no sucessor de “Three Kings”, a abordagem directa a cada canção e o trabalhar desse mesmo aspecto do processo de songwriting — o de reconhecer a palavra song. Numa tirada fora da caixa da carreira de uma banda formalmente comprometida em explorar com solos e mais solos os ambientes dopados dos riffs de guitarra arrastados, “Warble Womb” exalta a capacidade de compor de quem já tem formação superior em mexer-se pela música. O lado de exploração, de adoração da guitarra enquanto instrumento demoníaco dos alicinogénios musicais continua, claro, a ser o elemento fulcral da identidade dos Dead Meadow, que, apesar disso, não se coibiram de fazer canções e fazer do novo disco uma refeição mais ligeira.

Músicas como “Sand Storm”, de guitarra acústica como timoneira, que divide alguma da sua magia com “One More Toll Taker”, uma brincadeira a duas guitarras à qual a voz do mais cool que nunca ao microfone Jason Simon, surgem como evidência da queda inegável para a melodia do trio. Já “Rains in the Desert” funciona como prova de que os Dead Meadow ainda sabem fazer stoner do bom, algo que o groove irresistível da faixa de abertura “Six To Let The Light Shine Thru” já deixava antever. E há que saborear o flirt com o tropical do final de “I’m Cured”, não tão escandalosamente claro quanto o dub de “Copper is Relentless (‘til It Turns Into Gold)”.

Os Dead Meadow regressam com um disco tão psicadélico e dopado quanto a banda sempre foi ao longo dos seus quinze anos de actividade, de deserto e de estrada. Mas é nas canções bem construídas que os norte-americanos nos conquistam, com “1000 Dreams” a encabeçar um rol absolutamente delicioso delas. Da repetição para a riqueza dos adornos, os Dead Meadow souberem como fazer valer cada pequena melodia de “Warble Womb” e gestaram um fruto.