Findos os 24 minutos, na boca resta-nos o fel. De chofre, “The Blind Hole” é intragável – à quarta malha, uma tal de “Strenght Through Restraint”, o feedback à Bastard Noise enrodilha-nos em dissonância e vomita-nos no grind. É a vitória-mor do primeiro LP dos Dead In The Dirt: as guinadas estilísticas são permanentes. Quais miudinhos de escola que o Oceanário visitam, nós, presas deste álbum, seguimos em filinha indiana pela história do mordaz hardcore norte-americano. Cada malha – e são 22 –, uma lição.

Arreliado com a mundana ignorância, o trio de Atlanta consumou toda a exasperação que lhe era vaticinada em “Fear” e “Void”, os EPs. Sublinhando a revolta crítica e consciente que Chris Colohan nos (e lhes) ensinou através de Left For Dead, a cólera está explícita em todos os escaninhos e a reflexão implícita em cada vocábulo – a filosofia vegan straight edge, antagónica ao pensamento dominante, exterioriza-se nos berros guturais de Blake Connolly e nos gritos rasgados de Bo Orr. Fúria outcast, de quem não tolera a resignação. O toque misantrópico, oferecido por Charles Bukowski em “Mask”, apimenta o ramalhete – ironicamente, diga-se, já que o escritor foi quiçá o maior alcoólico do séc. XX.

Na anti-social coerência, o som cometido pelos Dead In The Dirt tem tanta meiguice quanto uma pitão furibunda. Influenciado pela sórdida escola que une sludge, noise, crust e powerviolence, “The Blind Hole” verte a bílis dos His Hero Is Gone, cheia de low-end, distorção e breakdowns de abrir o sobrolho. Inquestionavelmente peritos na velocidade, os norte-americanos aprimoram a lentidão: quando “Caged”, “Halo Crown” ou “You Bury Me” ecoam vagarosas, percebemos o quão bem lhes fez andar na estrada com os Sunn O))).

Impecavelmente produzido, “The Blind Hole” auto-proclama os Dead In The Dirt como figuras impreteríveis da boa música pesada que se faz nos States. Talento na hostilidade.