Devido à conferência de imprensa anunciadora de mais nomes no Optimus Alive 13, uma pequena multidão estava já à porta após as 22h. A mesma que, quinze minutos depois, inundava o amplo e trés chic espaço do Lux, alojada nos belos cadeirões imperiais ou por entre a esplêndida vista para o Tejo. Uma hora volvida e no piso de baixo a plateia ilustra-se em casa cheia ou perto disso – Paulo Furtado irrompe em palco mas voltou logo atrás: “Esqueci-me de uma coisa; não vou dizer o que era”. Guitarrada a surgir para o início. No entanto, o esquecimento continua. Desta feita, o Legendary Tiger Man, além de se ter esquecido de algo (não sabia do quê), filosofa: “Será que estou a ficar senil? É possível…”. Fica a pergunta, mas Life Ain’t Enough For You saiu mesmo e sem qualquer impasse – o normal – sendo o homem-tigre dos blues acompanhado pela quente voz de Asia Argento. À terceira malha, já dentro da sua muralha instrumentalista a lançar bluezadas enérgicas para um público estranhamente calmo, Paulo Furtadonovamente socrático: “Tudo bem por aí? Eu acho que vocês precisam de mais um copo. Ou serei eu? Se calhar sou eu…”.

Houve ainda espaço para um momento exclusivo, com Pedro Gonçalves e Tó Trips a entrarem em palco para darem som a Let Me Give it To You do disco Masquerade. Mas, antes, Furtado teve de criar o ambiente necessário: “As meninas estão tão conversadoras, eu sugeria-lhes que fossem conversar lá mais para trás, hum?”. As tais meninas não pareciam portuguesas mas comprenderam a mensagem e a performance dos três guitarristas encabeçou um dos momentos mais sublimes do concerto, que ainda contou com mais uns quantos velozes Naked Blues antes do final, com Paulo Furtado a saudar os seus repercussores no palco: “Uma das bandas mais bonitas do mundo, eu diria”.

Um belo quadro é composto em palco como é habitual no duo, com uma decoração típicamente portuguesa em que há instrumentos de cordas e flores em cima de amplificadores. Mas este quadro não é de naturezas mortas: para o completar e dar vida entram Pedro Gonçalves de cigarro nos lábios e o homem da cartola Tó Trips, com uma dose inicial bastante nutritiva de Sopa de Cavalo Cansado, onde Gonçalves dirige o contrabaixo e é trips de guitarra.

Envolvência é uma boa palavra para defini-los: a sua música envolve todo o ambiente decorativo e visual e, essencialmente, envolve o público por entre todo este envolvente. Transformando o estado de espírito dentro da sala num grande todo que vai da nocturna melancolia Lusitana a mornos e sedutores ritmos de temas como A Menina Dança, seguida da enebriante Rodada – onde no final o teclado da melódica é igualmente reco-reco. Dedicada ao Cais do Sodré surge Lusitânia Playboys, sítio de muitos marinheiros, segundo Tó Trips, ele que dá umas valentes cacetadas nas cordas durante as deslizantes mutações rítmicas que dão o tema por terminado. Paulo Furtado entrou novamente em palco, dando ao público outra chance de ver três dos mais proeminentes e inovadores músicos tugas da actualidade a tocarem juntos no mesmo palco. Uma hipnotizante cavalgada dedilhada em Mr.Eastwood desbrava terreno baldio para a requintada Lisboa Mulata (faixa que dá nome ao último lançamento do duo) a irromper no Lux ritmo aos magotes, feeling de excelência, técnica clássica e vanguardista.