A primavera a começar e uma noite invernosa acentuava-se. A revolta com o S. Pedro dava vontade de entrar num espaço fechado, de preferência com caveiras e, por que não, pedir a dois gajos para musicarem histórias oníricas. Desejo impossível de concretizar por quem, num dia de sol, não se atreveu a comprar bilhete – esgotaram os cerca de 500 lugares colocados à venda e alguns convidados assistiram em pé ou sentados no chão. O PA’ teve o privilégio, tal como toda a imprensa convidada, de ficar numa bancada destinada aos repórteres.

Minutos antes do início olhava-se em redor do palco – adaptado a sala – e o sentimento era de estranheza. Nenhum elemento indiciava que se estava no Coliseu dos Recreios. Os adereços e a disposição dos lugares – como numa igreja – aludiam a um cenário de peça de teatro. Mais tarde dissiparam-se as dúvidas quanto ao sagrado espaço que acolheu os pecados de Pedro GonçalvesTó Trips.

Na noite de sexta-feira, felizmente, não se vislumbrou na plateia qualquer membro da cambada de “Bunch Of Meninos” que nos governa. Como se previa, foram apresentados grande parte dos temas da última contestação. As imagens projectadas na tela que ocultava o Coliseu acompanharam as três primeiras músicas – que integram o disco – convidando o público a esquecer a realidade exterior. Em “Mr. Eastwood”, somente com iluminação minimalista a destacar a entrega corporal de Tó Trips, solicitaram o cerrar dos olhos e a criação individual de personagens cinematográficas. Surgiu o primeiro grande aplauso da noite, aparentemente não por se tratar de uma faixa antiga mas pelo feedback da guitarra de Trips que diferenciava da versão estúdio.

Por vezes, Tó Trips apresentava as narrativas inerentes aos temas. A sala tornava-se mais acolhedora e a alternância das músicas de “Bunch Of Meninos” com outros álbuns, tal como a projecção vídeo e sua ausência, embrenhavam os presentes. As belíssimas faixas do novo disco soavam bem, embora tivessem potencial para explorações rítmicas mais intensas. Decorria mais de uma hora de espectáculo e, para além de novos temas, faltava algo que distinguisse o concerto. Talvez alguém do público imaginasse Nicolas Cage e Laura Dern a surgirem por detrás do cenário para dançarem como em “Coração Selvagem”; sonho legítimo e coerente com o imaginário da noite. Eis que em “Eléctrica Cadente” sobe o pano e vislumbra-se a plateia vazia do Coliseu dos Recreios por detrás da banda. Paulatinamente iluminada tornou-se fundo rococó adequado à rendilhada música dos Dead Combo. Conquistado por completo, o público rendeu-se à história mirabolante de “Dos Rios” (agradecendo terem desistido de lá ir beber mescal e de estarem vivos) e aplaudiu efusivamente o final do concerto com “Bunch Of Meninos”, a música do álbum que dispara mais balas.

Antes do momento alto da noite, os músicos tinham-se deslocado ao canto do palco para duas odes às respectivas filhas: “Zoe Llorando” e “Welcome Simone”. Ambas serenas, para não as acordar.

No final, Pedro Gonçalves confessou que não era expectável tocarem para plateias grandes e agradeceu a diversos elementos da equipa, amigos e público. O culminar do ano será em Dezembro. quando voltarem as costas e actuarem para a imensa plateia que estava por detrás. Novidade fresquinha dada pelo próprio.

Para o encore, imediatamente pedido pela plateia em pé, “Malibu Fair” e “Lisboa Mulata”, que dispensava as palmas do público a desmarcar o ritmo. Quase duas horas depois do início a sala estava rendida ao concerto que decorreu no palco do Coliseu. Especial, claro. Bom, como já não é novidade.