Antes de as luzes se apagarem para receber os Dead Combo, eram visíveis algumas cadeiras ainda por preencher para receber a estreia da banda na sala que, segundo os próprios, quando começaram nas suas lides, nunca pensaram poder pisar enquanto artistas, uma vez que, a visualização futura apenas entendia, tal como Tó Trips mencionou, a actuação em buracos.

Ainda bem que assim não foi e, apesar de ser muito salutar ouvir os temas em pequenas salas, é um justo reconhecimento para quem tem lançado sempre discos diferenciados e originais. Com uma curiosa introdução a preceder a entrada do duo, o sistema sonoro refere a Aula Magna como o local que vai ser transformado em Aula Mulata. Pede-se a não utilização de flashs porque ferem e distraem os artistas. O cigarro não é esquecido. Apagado pode comparecer no canto da boca porque fica bem e é gingão. E, desta forma, tudo estava preparado para assistir à bela aula que foi leccionada.

Ao longo de quase duas horas e meia, naquele que terá sido porventura o concerto mais longo da banda, os Dead Combo mostraram diante dos presentes que foram capazes de incorporar e transmitir o seu Manual da Vadiagem. De facto, aquilo que Tó Trips e Pedro Gonçalves conseguiram construir é de uma consagrada originalidade. Uma espécie de banda sonora para paisagens que com o movimento do ouvinte se permutam e transformam. A sua música transportava para momentos, para o atravessar de imagens e de circunstâncias.

Já se sabia de antemão que a noite iria ser especial e consagrar a presença de alguns convidados. Contudo, no início são apenas o Gangster e o Cangalheiro que agitam os seus instrumentos. É nesta versão que acabam por soar melhor, mais puros e singulares, usando a visão sonora do passado para o complementar na actualidade. Assim, parecia que os Dead Combotocavam algo que submetia para tempos idos, mas adequados ao presente, através da cadência ritmada conferidas pela guitarra e pelo contrabaixo, associados a uma terceira via, ou seja, o constante bater de pé de Tó Trips que se torna também ele um instrumento.

Durante este período, é praticamente feita uma retrospectiva de todos os discos, começando com Rumbero do Vol.1 e terminando em Esperanza do Vol.2. A entrada de convidados inicia-se com Like a Drug, versão dos Queens of the Stone Age – ou como Tó Trips definiu, uma música de rádio que está a tocar na cozinha de um restaurante chinês-, que contou com a participação das Víboras do Chiado que, através dos seus cantares compõem uma vertente pouco usual nos concertos passados da banda.

Um dos momentos altos terá sido, sem dúvida, a presença de Camané, que com a sequência Ouvi o texto muito ao longe, O Vendaval e Inquietação de José Mário Branco, constituíram momentos arrepiantes e saudosos. Juntar tamanha voz a tamanhos compositores só poderia ter um bom resultado. Posteriormente, a presença da Royal Orquestra das Caveiras, conferiu uma maior profundidade aos temas, tornando-os mais cheios e grandiosos, exponenciados pelos instrumentos de sopro, pela bateria e pelo piano.

No entanto, sente-se a perda das cordas como factor principal e a pureza do som da guitarra deixava de ter o seu papel necessário e primordial no som dos Dead Combo. A encerrar a noite e depois de Cacto, Eléctrica Cadente e Malibu Fair, surge o momento deLisboa Mulata, um dos temas certamente mais aguardados, sugerindo à dança. Movimento esse estimulado pela banda que, apesar de tudo, congrega poucos dançarinos para os ritmos étnicos que o som despoletava.

Depois de reunir um público alargado num espaço como a Aula Magna, resta saber aquilo que poderá significar tal feito na carreira futura dos Dead Combo. Que não faltem à “Aula” e continuem a construir momentos gloriosos na música feita em território nacional.