Tarefa concluída. Deverá ser este o sentimento que os Dead Combo tiveram quando abandonaram o palco da ZDB pela última vez. Mas, para além da noção de dever cumprido, talvez a satisfação por perceber que o fizeram com sucesso e mestria, seja superior ao cansaço da gloriosa demanda a que se propuseram.

Actualmente mais habituados a tocar em auditórios, os Dead Combo não têm como renegar a sua casa de partida. Por ali nasceram e a Galeria será sempre um espaço impregnado na história do duo. Ao longo de quatro presenças no Aquário, Pedro Gonçalves e Tó Trips, recriaram as suas quatro obras, fizeram-nos testemunhar e compreender a sua evolução musical mas, mais importante que tudo, mostraram que para além de puderem ser “nossos”, os seus temas conseguem representar tudo aquilo que não conhecemos mas que tentamos imaginar.

Teremos mesmo noção daquilo a que tivemos o privilégio de assistir?

Vol. 1

Pelos dias de “Vol. 1” os Dead Combo eram um segredo bem guardado para muitos, que na sua estreia, encontraram um poiso, uma sintonia e a representação musical para muitas duas suas vivências. Talvez as emoções que se tiravam da sua música estariam (e continuam a estar) relacionadas com o facto de não nos quererem expor a nada de repetitivo, mas sim, por via de toda a misturada que utilizam, proporcionarem algo novo e fonte de conforto. Dez anos passaram e esse segredo foi sendo cada vez mais conhecido. Por isso, observar a sua primeira criação num espaço tão personalizado e exíguo não poderia ter deixado de ser delicioso.

Seguindo o alinhamento do disco na sua ordem original, “Janela” mostrou logo o peso rude do contrabaixo em cima do dedilhar deTó Trips, naquele que será um dos temas mais sombrios e melancólicos do duo. Aqui se concebeu e entendeu a diferença para a maior animação de “Lisboa Mulata”.

Uma das grandes mais-valias destas duas personagens é conseguirem percorrer temáticas tão díspares. Ao ouvir “Mujitos Summer”, compreendemos que na mesma malha encontramos duas estações, o começo mais invernoso e depois o ritmo dado pelas cordas a recordar que os Mujitos são para ser provados no Verão. Mas também entender com “Eléctrica Cadente” ou “Polaroid Omelete” o quanto imagéticas são as composições.

“Vol. 1” apresenta uma comparência mais forte do contrabaixo, por isso, olhar para Pedro Gonçalves no seu abraço solene ao instrumento enquanto percorria as suas grossas cordas foi um exercício nobre por si só. O drama de “Viúva Negra”, os passos solitários, breves e lentos de uma caminhada pela calçada da “Rua Das chagas”, ou a estreia em palco de “Aos Zig´s Zag´s” e as suas guitarradas difíceis de apanhar, foram momentos de celebração, de história e, provavelmente irrepetíveis.

Terminado “Vol. 1”, os Dead Combo conceberam a primeira oportunidade para escutar novas faixas e esqueça-se a agradável mestiça Lisboa e recordemos a cidade bairrista, de porta aberta e trinco por fora a convidar à entrada. A Lisboa dos antigos e da pouca correria para os afazeres. Regozijemos com o que virá para o seu futuro discográfico. Não haverá hipótese para a decepção.

Vol. 2 – Quando A Alma Não É Pequena

Tó Trips não se cansa de dizer que os Dead Combo são dois gajos do jazz que andavam por aí. Dessas andanças resultou uma segunda proposta integralmente gravada na sala da ZDB e que oito anos depois seria novamente tocada no mesmo espaço. Mas eles nem nos precisavam de recordar as suas origens, “After Peace, Swim Twice” e “Quando A Alma Não É Pequena” trataram de o divulgar.

Rodeados por uma parafernália de conteúdos a recordar tempos idos, os Dead Combo com “A Menina Dança” permitiram perceber que o seu presente já aqui estaria escondido, mas numa vertente menos ritmada e menos apelativa a uma desenfreada dança, apesar de os beiços de Pedro na sua melódica a isso conduzirem. “Vol. 2” é ainda mais dramático e cinematográfico que qualquer um dos outros. Pareceu sentir-se tudo menos cru, mas igualmente intenso e subtil.

Lisboa até pode ser o motivo central de todo o seu processo criativo, mas “Mr. Eastwood” e o seu carácter pistoleiro e “westerniano” por todo o lado, transportaram-nos para longe. Imaginamos que Clint não ficaria decerto desanimado se os seus passos pelo deserto em busca do duelo e do retirar rápido da pistola do coldre, fossem acompanhados por estes acordes. Armas substituídas de seguida pelo “Assobio” e o câmbio entre o próprio respirar de Trips com o das suas cordas.

Apesar de o universo dos Dead Combo ser todo ele muito imagético com as figuras que assumem em palco, também os seus temas o são. Como tal, ao contrário do que seria suposto, é difícil encarar os títulos como desconexos dos locais e conjunturas para onde nos encaminham. “Despedida” é um claro exemplo disso e o encaminhar do adeus com a cadência lenta e com os muito acentuados graves do contrabaixo, não poderiam deixar de soar a uma partida.

No regresso após uma curta saída, mais uma estreia daquilo que nos irão trazer com “Dois Rios” e a sua aventura no México em busca de um decente Mescal. Não estiveram acompanhados dosMariachis mas nem foram precisos para se sentir o odor mexicano.

Lusitânia Playboys

Mais uma noite, mais um disco. Desta feita, “Lusitânia Playboys” e mais uma reviravolta contextual com um gosto ainda maior pelo movimento, contraste e dinâmica, como se comprovou com o início das hostilidades com “Sopa De Cavalo Cansado” e aquele seu cariz meio arisco, seguido do contra-senso de tempos em “Rank Song”, ou como Tó Trips a definiu “musiquinha de salão de barco abandonado”.

Ao terceiro registo tudo pareceu soar mais tematicamente pesado, barroco e sombrio. Contudo, a luz e a beleza notam-se em “Cuba 1970”. Punhos em riste para o confronto com marinheiros desembarcados no Cais do Sodré e temos o curioso, espontâneo e incrivelmente perfeito desacerto da faixa título. Assim, mesmo soando menos amistoso, isso não se reflectiu no carisma com que o duo tratou sempre de apresentar qualquer música, envolvendo-as numa história que, normalmente, submeteu à gargalhada geral.

A conivência entre estas duas pessoas sobressai constantemente, mas ainda mais em “Putos A Roubar Maçãs” e “Canção Do Trabalho D.C” em que parece ficar mais próxima, ou mesmo em “Malibu Fair”, naquele que definiram como a sua proposta maispunk com as duas eléctricas empunhadas de frente.

“Lisbon/Berlin Flight (TP 1001)” encerrou o longa-duração com o seu cariz tristonho de descolagem e embora sem Carlos Bica, a força do arco no contrabaixo engrandeceu o teor de ausência para novas terras.

Lisboa Mulata

Apesar de isso não se ter notado em termos de afluência nas quatro noites de lotação esgotada, para a última ocasião estava reservado aquele que será o álbum mais consensual e que mais perto esteve de transformar a ZDB num bailarico. Sejamos frontais, “Lisboa Mulata” é repleto de ritmo transbordante e do coerente e necessário rendez-vous de culturas, como ficou comprovado com “Cachupa Man” e o seu diversificado encontro étnico.

Contudo, nem só de cadências destravadas se debateram, sendo “Anadamastor” capaz de colocar um travão e indiciar que longe das tormentas, das tempestades e das encruzilhadas difíceis de transpor, os Dead Combo conseguiram revelar que a acalmia e a suavidade são pontos a atingir. No fundo, dando descanso à cartola que a qualquer altura parecia puder saltar e ao temperamento do constante sapatear de Tó Trips.

Olhar para estes dois é um regalo por si só. Se o guitarrista por baixo do seu chapéu, fechava os olhos e arreganhava as feições,Pedro Gonçalves no contrabaixo mantinha a expressão dura que qualquer individuo tem que ter quando se toca tamanho instrumento.

Na crispação de “Blues Da Tanga”, na obtenção do sublime em “Morninha Do Inferno”, e do silêncio em “Esse Olhar Que Era Só Teu” ou como o definem “um fado, mas só o seu espírito”, os Dead Combo assinalaram o quanto podem ser excepcionais e, mesmo que se despeçam dizendo que o público foi maravilhoso, nós só podemos devolver e retribuir o elogio e agradecer por durante quatro dias terem feito parte do nosso quotidiano e terem regrado o nosso dia-a-dia.

Olhamos para estes dois de lado para o público e de frente um para o outro e conseguimos imaginar que ali resida uma enorme cumplicidade musical e não só. Nem nos precisem de dizer, sentiu-se. E, talvez, esse tenha sido o maior fruto: a proximidade com que nos deixaram entrar em tudo o seu mundo. Esta combinação morta está mais que viva.