Nem todos os retornos reverberam no despropósito – o Coliseu, embevecido pela graciosa aura de Lisa Gerrard, sabe-o. A boca entreabre-se, as pálpebras semicerram, a pele desconcerta-se, numa Sanvean que não carrega em si a culpa de ser tão beatífica e egrégia. Vestígios de hipérbole em tudo isto não há: quando o tema se encerra, parte da plateia entrega-se a um sincero aplaudir de pé. O primeiro de vários.

O estatuto de banda de culto estriba-se confortavelmente no leito dos Dead Can Dance e justifica-se logicamente num Coliseu dos Recreios há muito esgotado, ainda nem Maio brotava no horizonte. Senhores de uma arte que esfarrapa bandeiras e lanceta fronteiras, Lisa Gerrard e Brendan Perry são como Sócrates (o grego) – cidadãos do mundo. Mas de um mundo peculiar, só seu, onde planisférios são escusados e o idioma se inventa a cada compasso. Rakim é o primeiro convite a sério para nele entrarmos, mal o yangqin nos sorri na sua delicadeza – seis minutos de “mare nostrum” tecido a musicalidade, já depois de Children of the Sun, que nos ofereceu as boas noites através de um Brendan qual crooner nova-iorquino.

Espanta, admira, como o espectáculo dos Dead Can Dance se desenrola de fluidez em riste. Ao legado erigido há décadas, os temas de Anastasis – álbum que sublinhou a canções o verdadeiro regresso do duo britânico-australiano, catorze anos depois – unem-se numa etérea sintonia. Não perturba que a menina Opium se alinhe na mesma constelação onde Black Sun faz sombra; o pré e o pós interregno codificam-se no mesmo ADN, guiando o concerto dos DCD pelo vibrato de duas vozes que se mantêm notavelmente intensas. Duas vozes que se entrelaçam nos silêncios e compreendem subtilmente que ambas podem garrir sem que uma necessariamente se sobreponha à outra – diversos foram os momentos em que Lisa saiu de palco para que Perry nos regesse e vice-versa. O mesmo Perry que, antes de Ime Prezakias, nos pede desculpa por não saber português e nos explica que o tema se traduz a partir do grego: “I am a junkie” significa, e da década de trinta oriunda, quando a Helénia cursava nova crise, semelhante à actual. Uma alfinetada nos governos europeus, no único momento onde escutámos mais do que o singelo “obrigado”.

Como se palavras mundanas fossem precisas ou imprescindíveis, sequer: envolta perpetuamente num consonante jogo de luzes, a sublime ancestralidade dos Dead Can Dance fala por si em The Ubiquitous Mr. Lovegrove, já em modo encore, quando permanece o sussurro do verso «I gave you all my time». Antes, e em “falsa” despedida, Brendan dedicara-se a uma intensa All In Good Time, sob o espectro de um tenso azul-escuro, onde a sua garganta não ocultou aquela alma de Jim Morrison que lhe parece fazer sempre companhia. A mesma que restolha em Song To The Siren, tributo a Tim Buckley forte o suficiente para mexer com as emoções de quem se encontra sentado; até mais do que quando Lisa Gerrard homenageia os This Mortal Coil entre a epopeica Dreams Made of Flesh. O final fica prometido a Anastasis: sublinhando a qualidade dos músicos que os acompanham, The Return of The She-King despede-se de Lisboa sob batuta medieval, num épico crescendo que só termina quando o Coliseu, compelido, se desfaz num aplauso vigoroso, longo. O último de vários.

No prelúdio, David Kuckhermann trouxe-nos o hang – instrumento insólito, nascido há apenas dez anos, mas amplamente capaz de se desdobrar num interessante rendilhado melódico. O grande momento da passagem do alemão por Lisboa prendeu-se, contudo, com o seu solo de tambourine: impactante, provocou o primeiro esgar de admiração da noite.