Lisa Gerrard vive na Austrália e Brendan Perry na Irlanda, a sua relação amorosa já há muito que terminou, o último álbum da banda tinha sido lançado em 1996, e a tour de 2005, com uma orquestra a acompanhá-los em algumas datas, pretendia oferecer uma despedida em grande. Mesmo a tímida actividade do conjunto australiano desde 2010 e o anúncio de um novo álbum em 2012 com subsequente tour de apresentação não diminuiu a estupefacção dos fãs portugueses quando, no dia 1 de Março, foram colocados à venda os bilhetes para a estreia da banda em Portugal. Em menos de 5 horas, a Sala Suggia da Casa da Música já se encontrava esgotada.

A espera foi tão grande e as expectativas estavam tão altas que ninguém lamentou o cancelamento de David Kuckhermann, que estaria a cargo da primeira parte. No momento em que os Dead Can Dance pisaram o palco, o público irrompeu em aplausos, assobios e berros que reflectiam o sentimento geral: a estreia da banda em Portugal tardou, mas mais vale tarde do que nunca. As 1200 pessoas que garantiram o seu lugar estavam prontas para os receberem de braços abertos.

Uma banda com uma carreira tão sólida não nos dá espaço para clichés como “regressaram melhores do que nunca”, mas é certo que Anastasis é um excelente álbum e um bom pretexto para esta nova tour. O álbum foi tocado na íntegra, e as novas músicas foram recebidas com tanto entusiasmo quanto clássicos como The Host of Seraphim, The Ubiquitous Mr. Lovegrove ou Now We Are Free, esta última composta por Lisa Gerrard em conjunto com Hans Zimmer para o filme Gladiador. Embora Brendan Perry possa querer prestar um tributo a Tim Buckley, a cover de Song to the Siren parece bem mais deslocada num concerto de Dead Can Dance do que num de Perry a solo. A interpretação pessoal e emotiva, porém, permitiu que esse momento, embora dispensável, não fosse desagradável.

Para um purista, talvez seja de lamentar a utilização de sintetizadores para recriar a sonoridade dos álbuns, mas não nos podemos esquecer de que esta é uma banda que dispensa as noções de espaço, tempo e época na sua abordagem à música. Cantos gregorianos podem ser misturados com polirritmia africana, cordas orientais podem ser tocadas em músicas com nuances góticas, e Lisa Gerrard canta frequentemente em linguagens imperceptíveis, idioglossias espirituais que só ela compreende mas que todos nós sentimos. Na impossibilidade de trazer uma centena de pessoas para cada espectáculo, os teclados são apenas outra forma de criar uma soberba atmosfera ao vivo. No entanto, o grupo não prescinde de dois percussionistas com vários instrumentos, já que o ritmo se quer orgânico, intemporal mas humano. De destacar também a bela voz da teclista Astrid Williamson, particularmente no contraponto imitativo de Return of the She-King. Quanto à voz de Gerrard, dificilmente se poderá fazer um elogio maior do que dizer que cumpre aquilo que se espera dela. As vozes estavam demasiado destacadas do instrumental nas músicas mais calmas, mas é raro termos a oportunidade de ouvir uma cantora do seu calibre, pelo que esse destaque apenas permitiu confirmar mais uma vez que Gerrard é portadora de uma das melhores vozes femininas da actualidade. Perry, por sua vez, é o complemento perfeito que preenche o espectro mais grave em músicas comoRakim, brilhando ainda a solo na já mencionada cover de Song to the Siren ou em Ime Prezakias, cantada em grego.

Mesmo perante um público receoso do silêncio, ansioso por exibir barulhentamente a sua estima pela banda mal cada música se aproximava do fim (algo que os músicos também incentivaram, fazendo 3 encores espaçados entre si por longos aplausos), os Dead Can Dance mostraram-nos quão vasto pode ser o mundo da música. Durante mais de duas horas, transportaram-nos desde a sua nativa Oceânia até à áfrica de Nierika e à Andaluzia moura deLamma Bada, provando que os nossos ouvidos estão mais receptivos a sonoridades exóticas do que as grandes editoras nos querem fazer crer. Lisa Gerrard esperou pelo fim do concerto para se dirigir ao público: “You are beautiful, I love you”. O sentimento é recíproco.