Dezasseis anos depois de Spiritchaser, período no qual os membros dos Dead Can Dance se dedicaram às mais discretas e irregulares carreiras a solo (algum ambientalismo excessivo, por exemplo, em certas coisas de Lisa Gerrard), Anastasis marca o regresso da banda australiana aos discos. Este apontamento é, por si só, um dado histórico e a popularidade que os Dead Can Dancecontinuam a ter tantos anos depois dos seus tempos áureos (o concerto do Porto esgotou em poucas horas, só para se ter uma ideia), apesar de não fazerem música fácil e de nunca terem sido uma banda a entrar em caminhos mediáticos óbvios, mostram-no de forma inevitável.

Quem esperar grandes novidades em Anastasis, pode abandoná-lo desde já. O que encontramos é, de uma forma geral, uma reciclagem do património dos Dead Can Dance. O misticismo quase religioso, o carácter épico, o esoterismo oriental, o negrume 80’s, a sofisticação própria da fase inicial da 4AD, as percussões indianas, as vozes soberbas (e inconfundíveis?) de Brendan Perry e Lisa Gerrard… tudo isto volta a estar aqui em doses equilibradas e capazes de criar fascínio nos fãs e a quem não lhes deu a devida atenção no passado.

Lisa e Brendan dividem-se vocalmente pelos oito temas deAnastasis. À profunda espiritualidade da senhora Gerrard e ao transporte gratuito para o Oriente com Agape ou Kiko, Perry responde com a tonalidade grandiloquente (e um pouquinho maisclean) de Children of the Sun ou com a melancolia soturna do fabuloso Amnesia. Os dois juntam-se e complementam-se no épico e quase eufórico (à escala, claro) Return of the She-King, uma súmula perfeita de tanta coisa boa que se fez nos últimos anos (entre M83 e Julia Holter, para citar um contexto recente). Mau gosto, pese embora o carácter relativo da expressão e apesar do movimento por uma fusão que poderia facilmente descambar numanew age embaraçosa, foi algo que poucas vezes terá existido na carreira dos Dead Can Dance e está longe, bem longe, de aparecer por aqui.

Tantos anos depois, Anastasis é um disco de uma banda fora do seu tempo e fortemente agarrada à sua matriz identitária. Com música desta qualidade, com a fidelidade aos elementos fundamentais do som dos Dead Can Dance, este facto só pode ser nota de elogio. Um belo disco, seja qual for o contexto.