Desde o lançamento de The Cult is Alive em 2006, constatar que um novo álbum dos Darkthrone não soa a black metal a la anos 90 tornou-se uma trivialidade. Assim, The Underground Resistance, décimo sexto longa-duração da banda, é o lógico continuar na direcção estabelecida nos últimos registos, mergulhando ainda mais a sério nas influências clássicas introduzidas no anterior Circle The Wagons. Isto é, temos em mãos o disco mais Metal (tão pura e simplesmente metal que até merece maiúscula) da carreira da banda, impregnado de um sentimento old-school e da atitude desafiadora que sempre tiveram.

Apontar todos os estilos visitados nestas seis músicas é quase um exercício de história do heavy metal, já que praticamente todas as vertentes clássicas do género estão presentes. Da thrashalada repleta de d-beat com que Dead Early abre o álbum, até ao final com Leave no Cross Unturned, malhão de catorze minutos que deve tanto ao heavy metal de uns Manilla Road ou Mercyful Fate (com direito a falsetos e tudo!) como aos Celtic Frost, cujos riffs já há muitos anos que são fonte de inspiração para os dois. Como vem sendo hábito, a composição do álbum é repartida entre os dois músicos, com cada um a assinar três temas neste caso.Nocturno Culto encarrega-se essencialmente do lado mais agressivo do disco, sendo Come Warfare, the Entire Doom o melhor exemplo disso mesmo com os seus oito minutos de sujidade. No que diz respeito a músicas capazes de assustar fãs antigos, o título tem de ir para a divertidíssima Valkyrie,essencialmente uma cavalgada a tender para o épico assinada pelo Fenriz e onde às vezes parece que está a cantar power metal, acabando com um lead de guitarra orelhudo que podia ter sido escrito pelos Iron Maiden.

Outro aspecto que importa apontar é a solidez da execução do álbum. Se é verdade que nenhum dos músicos construiu a sua reputação às custas de um grande virtuosismo, nunca terão tido um desempenho tão sólido como aqui, onde não só sacam riffs como deve ser uns atrás dos outros, como também o trabalho de Fenriz na bateria é digno de elogios. Depois ainda há as vozes, onde o berreiro necro de Nocturno Culto está ao seu melhor nível enquanto o seu companheiro se diverte a mostrar que continua a não saber cantar muito bem, mas a fazê-lo com um carisma inegável.

Se no inicio da sua carreira perguntássemos a fãs de Darkthrone que futuro preconizavam para a banda, ninguém no seu perfeito juízo teria mencionado uma fase meio punk cheia de referências a Mötorhead seguida de um adicionar de elementos de tudo o que é “metal verdadeiro” antigo. Mesmo que alguém ousasse tal previsão, não teria sido certamente levado a sério. O que é certo é que o fizeram e, exceptuando a emancipação à bruta da cena death metal a cargo de A Blaze in the Northern Sky de 1992, houve sempre coerência na constante evolução da banda, evitando cortes demasiado abruptos ou perdas de identidade desnecessárias. Claro que comparar directamente Transilvanian Hunger e The Underground Resistance dá quase a ideia de não se tratar da mesma banda, mas há 19 anos de crescimento que não podem ser ignorados e comparando álbum a álbum, as mudanças são sempre graduais e bem feitas. Aliás, não é muito descabido dizer que é mais drástica a passagem de De Mysteriis Dom Sathanas paraGrand Declaration of War dos seus compatriotas Mayhem do que qualquer alteração entre dois álbuns seguidos do duo Norueguês.

Apesar de se apoiar numa estética antiga, convém não cair na tentação de reduzir The Underground Resistance a um álbum meramente revivalista algo irrelevante no panorama actual. Nem que seja pela forma despretensiosa com que passam de um nicho para outro e combinam elementos distintos sem fazerem o producto final soar desconexo, já seria mais do que uma mera homenagem aos seus heróis. Mas mais importante do que o estilo abordado, é o facto de ser um álbum de grandes malhas, de uma banda que insiste em não estagnar. Ao longo de mais de vinte cinco anos, poucos serão os trabalhos mal conseguidos e este não é certamente um deles, antes acrescentando mais um momento positivo a um estatuto lendário que continuam a justificar.