Ah!, quem somos nós, humildes escribas, perante uma magistralidade que, de tão altiva, só poderia ser transcrita num par de nomes: Danko Jones? Ninguém, claro está. Comuns mortais. A pose “gimmicky” do canadiano chateia pelo seu exagero e nisto do rock n’ roll nem sempre é cool a sobranceria desmedida, mesmo que ensaiada ao espelho vezes sem conta e teatralizada em palco outras tantas.

Quer soltemos um sorriso ou cruzemos os braços de impaciência, a verdade é que o auto-endeusamento de Danko Jones é indissociável das suas performances: promete-nos “o maior concerto que Lisboa assistirá este ano” antes de First Date, troca a protecção do microfone depois de este tombar na plateia – “sou um germofóbico”, confessa – e garante-nos, em Mountain, que a sua ascensão ao topo da montanha do rock (seja lá o que isso for) é uma certeza. Ninguém o poderá parar, caramba!; e, quando deixar toda esta banalidade, decerto terá a companhia de Ronnie James Dio, de Randy Rhoads, de Jeff Hanneman, de Adam Yauch – berrado duas vezes, pois os Beastie Boys não parecem ter lugar na colecção de discos da plateia – de Cliff Burton ou dosRamones.

A verdade é que, se lhe roubarmos toda essa “stage persona”, aDanko Jones sobram-lhe uns riffs que de hard têm muito, mas que de original nem tanto. Regendo-se pela desadornada mas extremamente eficaz cartilha dos AC/DC – esses, sim, doutos e catedráticos na arte do acorde simples –, o canadiano até mexe com a audiência quando buzina o seu Cadillac e traz-nos à memória o modelo clássico do concerto de rock em Full of Regret, assim que ele e o baixista John Calabrese saem de palco para um solo de bateria à responsabilidade de Atom Willard. Porém, nada disto é suficiente para que a promessa de um enorme concerto seja cumprida – é bom, é fixe, é “nice”, é gingão, é porreiro. É extraordinário? Não. E o público, confinado ao andar de baixo do TMN Ao Vivo, nunca se entrega em pleno, mostrando-se até comedido na altura de clamar pelo também ele tradicional encore.

O retorno a palco sempre acontece: faz-se sob I Think Bad Thoughts, à qual se lhe adiciona a introdução de A Song For The Dead dos QOTSA e se lhe mistura, lá para o meio, os riffs de Iron Man e A National Acrobat dos Black Sabbath – os lisboetas entoam, claro, as criações de Iommi bem mais alto do que qualquer outra de Danko Jones e é aí que, se dúvidas houvesse, percebemos que o homem de Toronto ficará sempre à porta do panteão.

Nascidos em Gotemburgo, os Bombus pisaram o TMN Ao Vivo envergando t-shirts de respeito: dos Dead Kennedys aos Entombed, os suecos asseguraram-nos do seu bom gosto e, mal se escutou Biblical, percebemos que há também muito de Melvinsnestes tipos. Guitarras pesadonas, de tempero stoner/sludge, e um duo de vozes incomum, mas constantemente assassinado por uma acústica de bradar aos céus – parecia que os quatro nórdicos estavam a tocar nalgum confim subterrâneo, tal o eco. Ainda assim, um competente concerto, provando-nos novamente queDanko Jones tem um excelente gosto musical – se ainda não espreitaram a lista de bandas que ele apreciaria ver no Roadburn, cliquem aqui no seu artigo escrito para o The Huffington Post.