A Síndrome de Cotard aplica-se aos que julgam estar mortos, em apodrecimento perpétuo. Também aos que ilusoriamente pensam ter perdido um ou mais membros do corpo. Sean Ragon, tipo nova-iorquino que em 2007 fez nascer na solidão do seu quarto osCult Of Youth – em resposta às parolices power pop e ao inócuo ressurgimento do garage rock na Big Apple – rumou a “Final Days” com indícios da supracitada patologia. Não lhe cheirava a gangrena, nem de repente mergulhou na catatonia, mas comuns eram as noites em que de súbito despertava enfiado numa aflição mensageira do fim. Do seu próprio fim.

Esse medo perante o esticar do pernil envolve “Final Days” numa penumbra que Sean Ragon conhece bem desde os tempos que se envolveu platonicamente com Throbbing Gristle e Death In June. Mas ela jamais foi tão gritada como agora – o que no embrião não passava de um nervoso outlet acústico cumprido a solo, é em 2014 uma pulsante máquina de cinco vértices. Cinco pessoas levadas pelo delírio momentâneo de Ragon e hábeis em trazer essejudgement day, que só na cabeça dele existiu, ao plano terreno.

Utiliza-se neste disco, de sub-reptícia maneira, a ressurreição para derrotar a fobia da morte. Em “Empty Faction” encontramos Sean a largar o barítono, rasgando pelos berros a própria garganta. Se o neofolk é, na ninhada que o punk dos 70s pariu, a ovelha negra, não surpreenderá que os Cult Of Youth comuniquem telepaticamente com a frenética Manchester de há quarenta anos. Reerguem-se então os fantasmas da Factory Records para velar “God’s Garden” – que excelente exercício de post-punk – e convocam-se os espíritos amaldiçoados do blues americano com a missão de baptizar “Down The Moon” nas planícies do Mississippi. Nem a aura apache é sonegada; não duvidamos que, num dia destes, o David Eugene Edwards adiante nos surja enquanto ouvimos “No Regression”.

A guitarra acústica, preâmbulo de tudo o que é Cult Of Youth, mantém-se como fio-condutor. E são as variáveis circundantes, em permanente mutação, que fazem de “Final Days” um álbum grande. Mais do que uma bacoca emulação do neofolk britânico, Sean Ragon infecta-o de post-punk, deathrock e nem sequer a experimentação lhe escapa – “Sanctuary” enche-se de ruído orgânico por si gravado nas ruas de Nova Iorque e termina no embalo da violoncelista Paige Flash.