Se num específico nicho pretendermos inserir os Cult of Luna, então inevitavelmente tê-lo-emos de o fazer naquele ondeNeurosis ou ISIS são donos do ceptro. E nesse tal nicho, que comummente se designa por post-metal, o coração salta do tórax e espalha-se pela boca e pontas dos dedos, fazendo com que actuações ao vivo memoráveis se tornem não concretamente pela brilhante execução, mas por uma alma e sinceridade difíceis de encontrar noutro qualquer recanto. Os Cult of Luna, por misteriosas vias, transportam o melhor de dois mundos.

Não só carregam às costas uma alma que tem tanto de cristalina quanto de conspurcada, como se apresentam em palco abeirando a perfeição técnica e demonstrando um entrosamento de fazer cair o queixo. Se dúvidas havia em relação à setlist – e tanto se suspirou a priori por um ou outro tema de Somewhere Along The Highway ou Salvation -, não há como, noventa minutos depois de I: The Weapon, apresentarmos objecções aos suecos. Os temas deVertikal agigantam-se e, ombro a ombro com uma assombrosa Ghost Trail ou uma ríspida Owlwood, nada perdem – o mais recente trabalho dos Cult of Luna revela-se já órgão vital de uma banda que por ele clamava.

Os nórdicos são uma impiedosa máquina sobre o soalho de uma qualquer sala por onde pisam; a maneira brilhante com que atacam cada crescendo serve de lição a tantas bandas que por aí se julgam senhoras do peso. Gravitacionalmente pesados, de tonelagem elevada, são estes sete indivíduos que se apresentaram de silhueta embrenhada num magnífico jogo de luzes – os píncaros de Ghost Trail, Finland ou Vicarious Redemption dificilmente poderão ser arrastados da nossa memória para o vácuo. E, diga-se com toda a justiça, arduamente esta opinião seria defendida sem a impecável qualidade som que o P.A. do Paradise Garage brotou durante o concerto dos suecos, capaz de integrar com idêntico impacto tanto o duo intenso de baterias, quanto um sintetizador que ao vivo ganha preponderantes dimensões.

Se uma actuação para inolvidável ser depende de tantas variáveis, felizes nos podemos considerar por nenhuma ter falhado na noite de 29 de Janeiro. A assinar em definitivo esta declaração, In Awe Of ecoará por entre nós até novo retorno a Portugal dos Cult of Luna.

A abrir, com todo nexo, estiveram os Process of Guilt, a banda nacional com os maiores predicados para cortar a fita de uma noite regida pelos suecos. Empunhando nova e firmementeFÆMIN como seu trunfo-mor, o quarteto desferiu mais uma sólida e possante actuação, que maiores altitudes poderia ter atingido não fosse, aqui sim, o som algo confuso e abafado.