Arrasador. Não podia haver forma mais previsível de começar uma crónica sobre um concerto de Cult of Luna, estarão vocês a pensar. Peço desculpa por isso. Mas teria sido bem mais previsível, e o cliché seria ainda maior, se tivesse escrito o que queria realmente escrever e que é somente isto: não há palavras. Mas, a bem da verdade, devo dizer que não era algo adquirido que no fim do concerto o balanço fosse este. Embora Vertikal tenha sido dos CD’s da banda que me convenceu com mais facilidade (sim, eu sei que nem toda a gente pensa o mesmo), as diferenças em relação aos trabalhos anteriores e as suas características muito particulares deixavam-me apreensivo quanto ao resultado ao vivo. Havia dúvidas. Agora já não há.

Foi o concerto mais pesado dos suecos em Portugal. A setlist não surpreendeu (não houve nenhuma alteração em relação ao que apresentaram em tour até agora) e assentou essencialmente emVertikal, com as excepções a caberem a Ghost Trail e Owlwood, do antecessor Eternal Kingdom, e Finland, de Somewhere Along the Highway. A prestação arranca com I: The Weapon e é difícil permanecer imperturbado desde que o momento em que esta nos enfrenta, imponente como uma muralha. Parte fundamental da solidez dessa muralha – torna-se evidente deste então – chama-se Thomas Hedlund e é o homem que toma conta da bateria. O seu papel na banda pode passar despercebido, até por raramente a acompanhar em tour, mas é, sem dúvida, a par de Johannes Persson, o maior responsável pela progressividade e pela originalidade do grupo. Vê-lo ao vivo é simplesmente impressionante e Cult of Luna cresce ainda mais, tornando o acompanhamento da segunda bateria quase redundante (ainda que não seja novidade em Cult of Luna, diria que no concerto do Porto a conjugação das duas baterias pareceu o pormenor menos oleado nesta máquina, com alguns momentos em que a sincronia entre os dois bateristas falhou, algo notório em Vicarious Redemption).

Uma das dúvidas que este novo trabalho suscitava era quanto à possibilidade de transportar com eficácia para o palco o ambiente seco e sufocante que o distingue dos registos anteriores. Um dos pontos fortes de Cult of Luna era a intensidade emocional que alguns dos seus trechos ganhavam ao vivo. Essa intensidade mantém-se, mas o ambiente muda. Já não é a emoção quase bucólica que se atingia com um trabalho como Somewhere…, mas sim a emoção fria e solitária da urbe quando esta parece querer desabar sobre nós (tudo em conformidade com ‘Metropolis’, o filme que serviu de inspiração à banda em Vertikal). As vozes limpas deMute Departure e Passing Through, a cargo do guitarrista Fredrik Kihlberg, resultam surpreendentemente bem ao vivo e contribuem para esse ambiente. Mas a isso também ajuda a simbiose melhor conseguida entre sintetizadores e o resto dos instrumentos, embora ao vivo não tenha resultado tão bem quanto no álbum – algo que não parece ser devido à ausência de Anders Teglundnos teclados, substituído por Kristian Karlsson dos também suecos Pg. Lost, mas sim ao som do Hard Club que em alguns momentos deixou a desejar.

O fim chegou com In Awe Of, uma das melhores formas de nos fazer sentir o peso maquinal da enorme fábrica que opera emVertikal. O riff inicial emerge subtil, como um som vindo do fundo de um túnel, e cresce subitamente, aparecendo-nos como uma locomotiva que nos atropela e nos arrasta até ao final, onde ficamos, estendidos, em rendição, enquanto procuramos perceber o que acabou de acontecer e ansiamos pela próxima vez.

Por muito relativo e pessoal que seja, devo dizer, para que se perceba que o que escrevi não é apenas retórica, que Cult of Luna foi (é?) a única banda que me surpreendeu de cada vez que repeti a experiência de os ver ao vivo. Por isso repito: arrasador. Se ainda estiverem a tempo de os ver, não hesitem. Vão, fechem os olhos e sintam. Cult of Luna é uma experiência.

A tarefa de inaugurar a noite coube a HHY, o projecto de Jonathan Uliel Saldanha. Ajudou a compor a sala com a espessura do seu som, mas sem impressionar, muito embora se destaque pela legibilidade num género saturado pela abstracção inconsequente. A acompanhar.