Numa semana em que Jorge Jesus afincadamente cita Lenine, também nós queremos aqui afirmar que a prática é o critério da verdade. E, se tanta gente decretou data de validade aos Crystal Castles quando eles irromperam em 2008, dificilmente haveria um método empírico de maior eficácia do que testemunhar um concerto dos canadianos em 2013.

O avassalo inicial – devidamente embalado por uma entrada em palco ao som de Joy Division – esbofeteou qualquer hipótese deAlice Glass e Ethan Kath viverem já no purgatório dos fora de prazo. A malhona que é Plague, provavelmente a melhor do seu novinho (III), deixou os lisboetas a salivarem pela pecaminosa água de uma Baptism que continua tão orelhuda quanto em 2010. Abençoados pelo seu epidémico ritmo, Alice quis certificar-se da santificação e subiu para cima de um público que logo se esmagou para lhe acorrer e vassalar. Estava dada a primeira resposta.

Mas a noite não conseguiria manter o ponto de ebulição instituído nos dez primeiros minutos. Diante de uma plateia ávida por sentir o ácido descontrolo de uma Doe Deer ou de uma Black Panther, os Crystal Castles trouxeram para o Cais do Sodré uma esquizofrenia que transformou os oitenta minutos de concerto numa experiência de cumes e vales. Se por um lado, claro, houve extasiantes momentos provocados pelas faixas do seu disco de estreia e pela imbatível Celestica, por outro, as mais recentesWrath of God ou Sad Eyes – e até mesmo Empathy – removeram o ímpeto pelo qual tanto se deseja quando temos à nossa frente uma miúda que já armou o caos até de tornozelo engessado.

Se aquém ficaram da demência antevista, convém não retirar, ainda assim, mérito a um concerto que se revelou um forte teste às funções sensoriais do sistema nervoso. Para além de um som mordaz, de caninos agarrados aos nossos tímpanos (que diferença faz aquela bateria), o jogo de luzes dos canadianos elevou a experiência para um sufocante patamar – Cryptocracy, cover dos Huoratron, foi disso exemplo gritante. Se a isto adicionarmos o facto de Alice tantas vezes se ter submergido não só no seu próprio vocoder, mas também numa permanente cortina de fumo, encontramos possivelmente os Crystal Castles mais maquinais e menos sórdidos, mas retumbantes q.b. para desferirem uma persuasiva Not In Love.

Condições bastantes para o público exigir um encore onde Yes Notrouxe de volta a efervescência do início de noite, levando Alice Glass à derradeira passagem pelas mãos das primeiras filas do TMN Ao Vivo – que, pelas 23 horas, transportava já um espírito after hours, capaz de seguir os trilhos dos Crystal Castles até à manhã seguinte, se necessário. Fica para a próxima.