Não foi só nas caras de cada um dos suicidas que se deslocam ao sempre podre e sempre conveniente para a pancadaria e para o lamaçal sonoro AlmaEmFormol que os Cowards gritaram até lhes saírem as tripas. Foi também nos tímpanos, elevando em potência a probabilidade de surdez. Os franceses fizeram-se sentir em cada osso, assim que provocados os primeiros mosh pits, e em todos os músculos, exaustos e mergulhados em ácido lático ao final de 45 minutos do sludge mais agressivo que se veria a aniquilar o Porto em muito tempo (arrisco-me a dizer que desde Amenra que não se curvavam espinhas com tanto vigor).

Riscos de parte, os Aspen deixaram os Sleep em casa para darem uma nova rodada a “Winds of Revenge” e adoomalhar a noite com arrasto atrás de arrasto. Só com a potência dos amplificadores, o trio varreu a sempre suja cave com a sua variação de andamentos quase progressiva, ora simplesmente metal, com as suas arrancadas furiosas à High On Fire, ora monoliticamente doom, arrastando-se do montanhoso Colorado até à lamacenta Nova Orleães. Para quem repetiu a dose de ‘celos em doom no espaço de um par de dias, tratou-se, para nosso belprazer, de dois pratos diferentes, ambos à moda “farta brutos” típica do Minho.

Passadas as (grandes) entradas, o prato principal era um hardcore tão violento quanto indegesto, fixando de forma desagradável o sludge mais insano. A abrir, “Old City”, do novo EP “Hoarder”, definiu a tónica da desarmonia que grassou toda a actuação dos parisienses: riffs pesadíssimos e lentos a dividir os tempos com melodias a descambar ora para o negrume black metal, ora para a psicopatia violenta do hardcore mais musculado.

Não foram precisos mais de 45 minutos para esclarecer qualquer dúvida quanto ao portento decadente dos Cowards. Não é saudável, mas é rico em vitalidade, uma ode à autodestruição apoiada em muletas de deleite técnico nos instrumentos. C.L., iniciais por que se identifica o baterista, foi sempre o catalisador do caos que se instalou repetidamente no AlmaEmFormol, ora partindo para o blast beat, ora quebrando a música em cadências cheias de groove, a puxar pelos riffs de bateria e de baixo; foi, ao longo de todo o concerto, a lógica que ditou a direcção por onde a demência poderia fazer mais estragos e que, provavelmente, levou ao êxtase de mandar os queixos dos presentes, assim como a electricidade, abaixo. Momentos a recordar um dia mais tarde, sem dúvida.

Que não se fique com ideias sobre a simpatia de quem vem da cidade das luzes — os Cowards não pertencem ao mundo dos jardins e das ruas intermináveis de paris, mas aos canais lamacentos do Sena. Despediram-se dos agora tão igualmente conspurcado público com “Blessed Persistence”, dos 16 Horsepower, uma saída de mansinho para a evidência de que aquele baixo é mesmo porcalhão, de que aquele baterista é um animal e de que os guitarras, insanos, são os únicos capazes de disputar em berraria a degolação vocal do frontman-vocalista J.H.Felizmente para todos, haverá mais Cowards nos próximos dias. Alguém já viu um pântano a surgir em menos de uma hora?