A idade poderá até não ser um posto, mas o estatuto traz consigo as divisas. Aos Comeback Kid não lhes falta experiência e, acima de tudo, uma reputação que granjeiam desde o nascido em 2003 Turn It Around. De lá para cá, os canadianos editaram mais três álbuns, fortificaram o seu nome como um dos mais fortes da cena hardcore mundial e nem a também velhinha troca de vocalista lhes retirou preponderância.

Poderemos sempre debater se os CBK conseguem ainda combater o inevitável anacronismo que nasce do facto de o seu apogeu ter ocorrido há já alguns anos. O que não podemos contrariar são outras evidências: um Santiago Alquimista cheio e prontamente rendido a uma banda que veio a Portugal sem sequer trazer um álbum novo consigo – o último, Symptoms + Cures já data de 2010. E bastou que se ouvisse a música que inaugura esse registo, Do Yourself A Favor, para que o pit se abrisse e os primeiros devotos do stage dive começassem a deixar nódoas negras naqueles que queriam estar perto de Neufeld. Se o estatuto dos CBK em muito contribui para que a afluência seja sempre positiva, independentemente da sala e cidade onde actuam, o que não pode ser olvidado é que o quinteto continua a alimentar essa onda que criaram há quase uma década.

Não só não goraram expectativas, como deixaram bem claro que ainda estão longe de entrar numa curva descendente, tantas vezes rápida e acutilante a atingir quem milita na cena hardcore. Seja com Defeated ou com All In A Year, os Comeback Kid continuam a fintar o relógio e prova disso foi vislumbrar uma plateia que se compôs de gente dos 15 aos 35. Nem mesmo um problema com o micro de Neufeld, que o obrigou a socorrer-se do mic de um dos guitarristas, impediu que a actuação do grupo de Winnipeg se grudasse em suor na cara dos presentes e que lhe espetasse um sorriso na cara enquanto berravam Wake The Dead. Com um outro público, o concerto até teria acabado por ali, mas em Portugal osCBK são sempre obrigados ao… Comeback. Um encore que se fez de uma malha nova e da sempre arrepiante Die Tonight, gravada com a voz de Scott Wade (onde andas tu?) e ainda hoje gritada em qualquer sala por onde passem os canadianos.

Vidas, ciclos, inícios, fins, meios-termos, histórias. Na música, e no hardcore em particular, também há quem comece e há quem acabe. Os pombalenses My Cubic Emotion foram até ao Santiago Alquimista para se despedirem de Lisboa e para o seu penúltimo concerto de uma carreira que se iniciou em 2002. Apesar de ter sido um “farewell show”, os MCE tiveram alguma dificuldade em extrair mais do que uns acenares de cabeça e daí que tenham até vociferado que o público estava a aquecer muito pouco para Comeback Kid. Há noites assim, em que a plateia já parece concentrada em imaginar o que se segue – certamente, no derradeiro concerto a 21 de Julho em Pombal, os MCE terão uma memorável despedida.

Se os My Cubic Emotion se preparam para sair de cena, há bandas que acabaram de entrar e estão claramente em ascensão. Apesar de terem entrado num ambiente ainda frio e terem tido o pior som da noite, os Hard To Deal repetiram as boas impressões de Never Ending Story, o seu EP de estreia, e lançaram os dados para o futuro com Carry On. Pelo meio, e porque convém ter memória, os Broken Distance foram homenageados com a cover de Walking Distance.

Com mais um ano em cima em comparação com os HTD, os Shape transpiram já uma confiança e solidez admirável. A cada concerto que os vemos, e o PA’ já conta com alguns no curriculum, os lisboetas apresentam-se num nível acima e com um feeling tremendo. O público mostra-se, nos dias que correm, conhecedor daquilo que os Shape têm para arremessar em palco e isso acaba por se traduzir em shows intensos e onde a comunhão plateia-banda atinge níveis para mais tarde recordar.