Não está fácil viver. Sinto-me como se mijasse sempre fora do penico e, de quando em vez, (mentira, é mesmo sempre), o único tesão que me sobra é aquele que me faz ansiar pelo dia em que pego no bacio de plástico e arranco dois dentes ao meu patrão. Sacar dum alicate e puxar-lhe a língua cá para fora até que a adenoide se veja e depois dá-la aos cãezinhos de Addiscombe para que o bandulho se lhes encha até não ladrarem. Esta raiva, que é daquelas que vai dar cancro não tarda muito, sinto-a escancarada nos Cloud Rat. Sei lá, deve ser tão difícil viver no esmegma de Londres quanto nos arrabaldes do Michigan, escarrados pelo nine-to-five nas sarjetas pós-industriais. A diferença é que os Cloud Rat processam muito melhor as cenas e até filosofam como graduados cheios de papers em Times New Roman. O título por exemplo é retirado da Kabbalah judaica e remexe na simbologia hebraica e no misticismo mais oculto. Em resumo, “Qliphoth” é o lado negro da moeda que nos é atirada para a mão mal nascemos, as tais forças do mal que insistem em deixar tudo de pantanas quando julgas que o plano vai correr bem. Não vai. E é claro que este disco fermenta essa frustração até que haja bolhinhas pela sala de estar.

Quando assim é, a música fica impecável. O hardcore, o grindcore ou tudo o que proclame a violência sonora como desígnio, vive das ganas de enfiar três bordoadas em quem sistematicamente nos lixa a vida. Cloud Rat é isso, é a raiva transformada numa síncope sem plenitude, sempre mais próxima da arritmia absoluta do que do sossego budista. A Madison grita até mais não, rasga-se, agoniza-se… eu só era queria ver a cara do patrão dela quando descobrisse este disco poisado na sua mesinha de merda, entre as papeladas e as listas com os fornecedores. Grande miúda. E como os Cloud Rat também não são uns maçaricos quaisquer (vão lá ouvir o “Moksha”), é normal que “Qliphoth” esteja carregado de variações interessantes. Não dá lá para perceber muito bem como é que na internet há gente surpreendida com o shoegaze da “Thin Vein” ou as post-cacetadas da “Udder Dust”. Ou só encontraram Cloud Rat agora ou então acham que os punks só sabem fazercovers da “I Wanna Be Sedated” ou da “Six Pack”. Onde é que esta gente vive mesmo? Tenho uns discos de Dystopia para lhes oferecer…

Arson is a form of self-expression in a place where you can’t express yourself.