Ah… Como os anos 60 foram prodigiosos. Eu não os vivi, mas pressinto que sim. É impossível, sequer, fazer uma lista de bandas/músicos dessa altura – acabar-me-ia por esquecer, certamente, de um ou outro nome inolvidável: heresia, portanto.

Foi essa década que surgiu no meu espaço mental enquanto ouvia estes Dead Meadow. Formados em 1998 em Washington D.C., estes rapazes da Capital City parecem ter nascido com algum tempo de atraso. Ao ouvir este seu 3º registo de originais, fico de imediato com a sensação de que os riffs de guitarra transpiram cores vivas e fluorescentes… E como sabem bem. É uma sinestesia compulsiva, que ataca logo na faixa de abertura I Love You Too. A acompanhar aqueles solos que Jimi Hendrix fez a partir do nada, está um som grave, de um baixo que parece feito de veludo tal é a sua capacidade de dar uma profundidade à toda a composição.Cheira a fuzz, cheira distorção e há uma nostalgia ácida, quase melancólica. É como se a Venus in Furs dos The Velvet Underground viesse fazer uma visita ainda mais espacial, como atesta tão bem Everything’s Going On. A atmosfera pacífica desta faixa, criada sobre glaciares de um teclado à Rick Wright, é um dos pontos altos do álbum. Não poderia cair melhor num dia de chuva como o de hoje, em que escrevo.

A voz, como não poderia deixar de ser, soa distante, ecoa como um eco de um outro eco. Uma multiplicidade de dimensões é atravessada pelo tom celeste de Jason Simon, ele que destila em simultâneo um catálogo imenso de variações de guitarra.The Whirling poderia cair que nem ginjas num álbum de Led Zeppelin; ninguém estranharia.

Outro dos píncaros de Shivering Kings and Others é a 6ª faixa: Good Moanin’. Se se colocasse esta música como explicação num dicionário à frente do conceito “stoner rock”, creio que assentaria que nem uma luva. Pura expurgação dos demónios a compasso. Não no sentido daquele stoner a descair para o doom, mas, sim, naquele stoner leve e relaxante, onde o riff é repetido para criar uma textura consistente.

A partir de Shivering King, o álbum assume um tom que larga as amarras do rock eléctrico; começa a embrenhar-se numa toada acústico-folk-hipnotizante, a fazer lembrar uns Wovenhand. São 20 minutos de pura evasão, de uma tranquilidade outonal, onde a guitarra acústica se mistura por entre samplers à Jonny Greenwood. A faixa final, Raise the Sails, afoga-nos num rio onde a maré é translúcida e calma, mas também é igualmente asfixiante. Um solo tímido, que circunda uma série de ruídos disfarçados, coloca um pano sobre Shivering Kings and Others.

É um encerrar de cortinas onde o psicadelismo volta a profanar a mais resistente e ortodoxa mente humana. Este álbum poderia ter saído algures entre 1968 e 1975; seria, certamente, uma obra de referência. Como saiu já nesta década, soa a um disco de homenagem e soa também a uma ode ao que de melhor se fez na altura em que o ser humano desbravava novos campos artísticos.