Há bandas que vivem de uma popularidade por vezes totalmente desprovida de mérito e a música popular está cheia de projectos totalmente perdidos, no que à qualidade diz respeito, que se revelam enormes êxitos. Devo, aliás, dizer que a música de massas actual vive de acordo com essa regra (sim, Ladys Gagas, Beyoncés e Rihannas, falo de vocês e não deixo a Lana Del Rey de fora desta posta), com raras excepções a comprovar a regra. Tendo em conta a memória recente do trabalho dos Genesis dePhill Collins, essa é a imagem que se pode ter do grupo britânico e da sua discografia, banhada com, bem, banhadas do género I Can’t Dance e por aí fora. Tudo isso teve uma razão de ser, resumida com um título de disco: The Lamb Lies Down on Broadway, o coroar de uma fase que conta com um combo tão incrível quanto Nursery Crime e Selling England by the Pound, alguns dos discos de art-rock mais promissores da década de 70.

Contudo, se os seus antecessores não cumpriram as promessas, o álbum duplo de 74 dos Genesis viveu para o epíteto de obra-prima. Sem sombra de dúvidas, é um dos discos essenciais do rock progressivo, é a despedida de um amedrontado Peter Gabriel, escondido atrás de personagens fantásticas, dos Genesis, com uma partida para uma brilhante carreira a solo e o declínio evidente do seu grupo, com Phill Collins a dar prioridade à voz em vez de se dedicar com afinco ao instrumento para o qual tem um talento mais do que absurdo. Em The Lamb Lies Down on Broadway, tudo se alinhou para que os dois anos que se seguissem ao lançamento do disco fosse a época derradeira do quinteto e o início do seu consequente declínio, que teve em Collins e na sua vontade de se popularizar o maior carrasco. Os Genesis não são nada depois de 1974, mas também não são tão incríveis quanto nesse ano: nuncaPhill Collins daria cartas na bateria com uma composição tão incrível e uma interpretação vocal de um belo texto tão especial quanto nesta altura. Eis o ponto alto de uma carreira que se estendeu demais, eis que se afirma o génio de Peter Gabriel, que soube quando abandonar um barco que, no seu esforço, atingiu uma bolina destrutiva e começou a meter água.

Apesar de ter sido o derradeiro disco da era Gabriel da banda britânica, The Lamb Lies Down On Broadway foi, provavelmente, o disco em que o vocalista menos participou no processo de gravação e de composição, visto ter sofrido uma série de problemas familiares durante o ano de 73. Contudo, depois de uma discussão, deixou o ponto de partida ideal para a preparação de um disco caracterizado por um ambiente negro, pouco característico nos Genesis até então: um conto que contava a estória de um rapaz porto-riquenho a viver numa nova-iorque kafkiana, labiríntica e demasiado alta, que se transformaria num pesadelo de grutas, criaturas misteriosas e problemas familiares – sim, há um tanto ou quanto de “O Desaparecido” (também conhecido como “Amerika”) na narrativa original de Peter Gabriel. Preterindo musicar “O Principezinho” em prol do conto metafísico escrito pelo vocalista, os Genesis construíram um dos álbuns conceptuais mais vanguardistas dos anos 70, conseguido ir da melodia mais pop e complexa com Carpet Crawlers (“We gotta get in to get out” é um dos refrões mais brilhantemente interpretados na história da música pop) e In the Rapids, ao negrume pesado e quase metálico de Fly On The Wind Shield, à composição progressiva de In the Cage e Riding the Scree e às explorações harmónicas quase proto-dronescas de Ravine, fazendo jus ao melhor psicadelismo vindo do Reino Unido na mesma época.

Na sua envolvência e na forma como somos impelidos a viver a bad trip de Rael, narrada por um deus que pode ser uma avestruz, e cujo encontro final com o protagonista se resume a It, agora, aqui, ovo e galinha, entre as nossas pernas, à nossa volta, absorvente e real – como Rael pensa ser –, The Lamb Lies Down On Broadway firma-se como a obra essencial dos Genesis, uma das indispensáveis do prog-rock, do art-rock e das vanguardas britânicas da década de 70. É possível reconhecer-se o talento do quinteto e ver como foi desperdiçado, de várias formas diferentes, antes e depois de editada a sua obra-prima; nunca se poderá apontar uma falha na concepção deste disco, uma obra completa, coesa e com o elemento essencial da temporalidade de poucos. Características que não se encontram, de forma tão evidente, no resta da discografia dos britânicos.