Atravessamos uma época onde proliferam bandas conotadas com a expressão dark hardcore. Granjeando influências dos mais variados espectros – do sludge ao powerviolence, do crust ao d-beat -, grande parte delas partilham semelhanças estéticas, simbólicas e iconográficas. Sentimos as raízes dos Integrity e da Holy Terror, o groove imortal do Wolverine Blues dos Entombed, a pútrida abordagem dos Eyehategod e, em definitivo, a materialização final de tudo isto, personificada num nome: Cursed.

Situemos o globo no Canadá, algures entre o Ontario e o Québec. Naquela que foi uma espécie de congregação do melhor que havia no subsolo hardcore do país, os Cursed ganharam forma, em 2001, a partir das ruínas de nomes como os Left For Dead,Haymaker, Ruination e The Swarm – esta última claramente influenciada pela corrente straight edge, e também com Chris Colohan na voz, ele que viria a ser escolhido para o mesmo papel no supergrupo canadiano (a título de curiosidade, foi também o baterista original dos renomeados Fucked Up).

Num dos seus primeiros concertos, o guitarrista/baixista de origem libanesa Radwan Moumneh (que viria a integrar os A Silver Mt. Zion) disse o seguinte: “vamos fazer um momento de silêncio pelo que se sucedeu nesta semana”. Silêncio cumprido, ao que se seguiu “aqueles pilotos tiveram muita coragem”. O contexto? Estávamos em 2001, num gig em solo americano, poucas semanas após o 11 de Setembro. Ninguém se riu, os Death Threat (banda que encerrou a noite) também não encontraram piada, mas a tensão na sala subiu de tal forma que os Cursed arrancaram aquela que viria a ser a primeira de muitas dilacerantes e asfixiantes noites.

O transporte dessas emoções para disco aconteceu a 25 de Fevereiro de 2003, com I [One]. Editado através da Deathwish Inc., e tendo Kurt Ballou na engenharia de som, o álbum assomou-se como um violento rombo de uma cena há algum tempo conquistada pelo marasmo. I trouxe para cima da mesa uma atitude semelhante à combustão espontânea: não há nele um vislumbre de futuro. A sujidade latente, o niilismo berrado a plenos pulmões por Colohan e a sensação de que a banda poderia muito bem ter acabado exactamente no dia em que gravou o disco – marcas impressas desde que Polygraph nos rebenta nas mãos, prosseguindo a ofensiva durante a meia-hora seguinte.

Em I encontramos exemplos não menos do que perfeitos dessa junção entre o hardcore, o sludge e o crust. Bloody Mary, Guilt Parade ou Nineteen Seventy Four mostram toda a veemência daquele que será recordado como um dos grandes guitarristas dentro do estilo: Christian McMaster. Os seus dissonantes riffs, cimentados num avassalador ritmo cravado por Mike “The Mauler” Maxymuik, são ainda hoje reproduzidos a papel químico por muitos que se lhe seguiram. Quando queriam, os Cursedsabiam também a precisa fórmula para deslindar lentas e depressivas composições, na lânguida tradição de New Orleans. Ouça-se How Great Things Happen When You Give Up Hope e entenda-se que a escola dos homens do Canadá estava bem distante de ser somente norteada pelas altas velocidades.

Inseparável de tudo isto está o encadeamento social onde os Cursed viveram e, principalmente, a forma inteligente como o abordaram. Claramente anti-guerra (que na altura começava a ganhar grotescas proporções no Afeganistão e Iraque), os canadianos souberam a ela opor-se sem nunca serem excessivamente políticos, evitando assim serem categorizados como uma banda ligada a uma determinada corrente ideológica. No fundo, os Cursed sempre se revelaram anti-dogmáticos, não caindo no tão típico de erro de se tornarem imobilistas na própria vontade de mudança. Outro exemplo passa pelas opções straight edge de alguns dos membros, que, à semelhança do que ainda hoje se sucede com os Converge, nunca disso fizeram emblema.

O álbum I amalgama todas estas correntes sonoras e opinativas, envoltas numa raiva inesgotável e numa efervescência que acabaria por inevitavelmente diluir a própria banda. Nos anos que se seguiriam, os Cursed haveriam de editar II em 2005 (considerado por muitos ainda melhor do que o primeiro registo) e o derradeiro III em 2008, enquanto percorreram a América do Norte e a Europa em mais de seiscentos concertos, não se opondo a tocar em restaurantes, arrecadações e squats. Tão crus e viscerais em disco quanto ao vivo, os dividendos pagaram-se física e psicologicamente: McMaster acabaria por ser operado duas vezes aos desgastados tendões das suas mãos; e a as tensões entre membros aumentaria a cada dia na estrada, fruto de diferenças pessoais, particularmente nas opções em relação ao straight edge.

O final aconteceria na tour europeia de apresentação de III. A 18 de Maio de 2008, depois de um concerto em Berlim, a banda foi silenciosamente assaltada num squat em Munique, enquanto pernoitava. Todo o dinheiro da tour (que tinha começado no mês anterior) desapareceu, surgindo acusações até dentro do próprio grupo. O derradeiro gig aconteceria no dia seguinte, na sala Bitterzoet, em Amesterdão, local onde pela última vez os membros de Cursed se encontrariam. Algo que mudou recentemente – Chris Colohan, McMaster e Maxymuik estão, no momento em que este artigo é escrito, juntos em ensaios para um concerto especial reunião dos Left For Dead, inserido na comemoração anual do aniversário da A389 Recordings, a 18 de Janeiro.

Quase cinco anos depois, e uma década após o lançamento de I, os Cursed permanecem tão cruciais e relevantes como então. Talvez até mais, fruto do, lá está, enorme lote de bandas que neles se inspira. Apesar do momentâneo regresso dos Left For Dead, duvida-se que o mesmo se possa suceder com o principal projecto destes músicos canadianos. Segundo Colohan, o facto de o dinheiro ter sido roubado naquela noite, na Alemanha, foi “como uma bênção caída do céu”, pois a banda precisava urgentemente de terminar, mas ninguém queria ser o responsável pelo definitivo sepultar.

Corrosivos e pungentes até ao definitivo fôlego, é provável que osCursed tenham ardido em demasiada para que alguma vez as suas cinzas possam ser recuperadas.