Quando, em 2007, os Chromatics lançaram Night Drive, fizeram aquilo que parecia impossível: pegar no italo-disco, uma das variantes bem duvidosas da electrónica dos anos 80, e dar-lhe requinte e intensidade dramática. Entre o mais dançável Healer, o negrume do maravilhoso tema título, o tom tenso e arrastado deTomorrow is So Far Away ou a sublime recriação de Running Up That Hill de Kate Bush, era possível perceber que o revisionismo era apenas o ponto de partida para um projecto com uma identidade própria muito forte.

Após um período em que foram lançando temas esporádicos e desmultiplicando-se por outros projectos (o mentor Johnny Jewelintegra também os Glass Candy e é o patrão da editora Italians Do It Better), a banda de Portland regressa com este Kill For Love.Globalmente, trata-se de um disco em que se mantem grande parte das coordenadas do disco de estreia: a base do italo-disco, a sensualidade frágil e misteriosa da voz de Ruth Radelet ou o ambiente cinematográfico que assentaria que nem uma luva no imaginário de David Lynch. Só que fá-lo com outra ambição.

Depois de Kate Bush e Bruce Springsteen (I’m On Fire), foi a vez de Neil Young ser homenageado. E que homenagem… Hey Hey My My ganha o título Into the Black e é simultaneamente fiel ao original e ao som típico dos Chromatics, fazendo a ponte perfeita entre os dois imaginários, ou seja, é uma cover notável e um verdadeiro modelo de actualização de um clássico. Esta é apenas uma das vertentes do disco, com uma duração superior a uma hora, mas que consegue ser suficientemente diverso para não saturar. A guitarra que remete algures para o post-punk de The Page, a electro-pop mais acessível do tema título, o impacto tenso do sintetizador inicial de Birds of Paradise (por momentos, o início da parte vocalizada faz lembrar Daniel de Bat For Lashes, com quem os Chromatics têm algumas semelhanças estéticas), o profundo sentido dramático do excelente instrumental Dust to Dustou a introdução de uma voz masculina, numa espécie de autotune contido, em These Streets Will Never Look The Same e Running From the Sun, são algumas das variantes do disco.

Eclético, mas consistente e globalmente fiel ao som próprio que os Chromatics apresentaram até aqui e que agora reforçam de forma arrebatadora. A ambição resulta em pleno e Kill For Love é um dos álbuns do ano.