O mais recente álbum da magnifíca Chelsea Wolfe contém uma brilhante mistura entre a Natureza – assim como os seus desastres naturais, que, embora concordemos que se podem tornar assustadores, brutais e desastrosos, mostram certamente o seu lado mais… Verídico e esplêndido – e claro, o Amor. O Amor, as suas dificuldades e barreiras. Todos nós temos a perfeita noção do quão díficil se torna.

É bastante óbvia a diferença entre “Pain is Beauty” comparada com os anteriores registos, como “Apokalysis” – o seu segundo álbum de estúdio, lançado em 2011, e que é provavelmente o seu trabalho mais reconhecido até hoje. “Pain is Beauty” tem tudo: as influências pop dos anos 90, sintetizadores e música orgânica. Sejamos honestos, é certo que não implica o facto de que a mais pesada, dramática e misteriosa compilação de letras/ritmos não estejam lá, porque definitivamente… Estão.

Acho que é notória a forma como este novo álbum, “Pain is Beauty”,te afectou de uma forma como os outros álbuns anteriores não o fizeram. Apesar de ter a certeza absoluta que todos eles foram equivalentemente importantes para ti e para a tua carreira músical, claro. No entanto, este tem a particularidade de representar uma Chelsea definitivamente mais corajosa que a Chelsea dos discos anteriores, estou certa?

A verdade é que tive que aceitar determinadas coisas como parte do meu “trabalho” como música, se realmente quisesse levá-lo a sério e criar algo duradouro. Porque, no final, fazer música é a única coisa que realmente me satisfaz a mim e à minha existência, como pessoa e parte da sociedade. Era frequente negar a minha música e usava constantemente um véu em palco, para me sentir… Invísivel. Tive inevitavelmente que superar isso e, ainda hoje é uma luta, mas sinto que apesar de tudo, e de se tratar apenas de uma “preocupação”, sou sortuda o suficiente para fazer o que gosto – música e, claro, digressões.

É um facto: já não estás de todo a cobrir a tua face com cabelo ou o véu neste último disco, como o fizeste nos artworks anteriores. O que mudou significamente para te conseguires sentir mais confortável com tal situação?

Acho que acabei por aprender a usar a roupa e a moda, no geral, de forma a que me sentisse mais forte e deixar o medo de subir ao palco de lado.

Ainda que a tua expressão facial e corporal, assim como o teu vestido vintage, reflicta a Chelsea que todos nós gostamos, acho que todos podemos concordar que a tua forma de te apresentares a nível de vestuário (seja em palco, ou fora deste) transmite-nos a veia mais negra, dramática e misteriosa do teu carácter, assim como da tua própria música. Dito isto, de alguma forma e/ou alguma vez te sentiste desconectada de algo em particular? Mundo, família, amigos. Algo que seja.

Sempre fui uma solitária, é certo. E na minha terra sempre me senti como um parasita, ao contrário do que de algumas pessoas possam pensar ou discutir. Quando mudei de cidade, nunca senti qualquer necessidade de tentar conectar-me com alguma “cena local” de músicos ou algo similar. Sentia-me confortável com a ideia de fazer o que queria e quando queria, de me mover ao meu próprio ritmo, deslocada de quem quer que fosse. A música e a minha vida movimentam-se em slow motion e acabei eventualmente por crescer e aceitar isso como tal.

É do meu conhecimento que também és filha de um divórcio, mas quem apesar disso, era habitual passares e frequentares o estúdio do teu pai frequentemente, quando eras mais nova. De que forma, influenciou a tua curiosidade relativamente ao factor “música”?

Para ser sincera, passava imenso tempo a ouvir o meu pai e a banda dele tocarem ou ensairem covers de Fleetwood Mac e, de certa forma, apercebi-me de que realmente era algo que podia fazer, eventualmente. Comecei a escrever histórias e poesia quando tinha cerca de seis anos de idade e, quando tinha à volta de nove anos, tentei converter essas mesmas palavras numa letra de música. As minhas irmãs usualmente faziam back vocals e, com o passar dos anos, apenas continuei a escrever música, ainda que nunca mostrando a ninguém durante a maior parte da minha vida.

Estou convicta que “The Warden” é um final alternativo para a obra literária “1984”. Houve então alguma música que te custou a escrever/compor, assim como tenha um carinho especial para ti?

“They’ll Clap When You’re Gone” – ainda que NÃO seja uma música sobre a minha própria vida, inclui certamente versos sobre ela, assim como a morte e o peso que cai sobre mim. Por isso, sim, levou-me imenso tempo a escrevê-la e a colocá-la no álbum. Escrevi-a quando estava sob efeito de cogumelos e estava mesmo a tremer. Não é que seja “defensora” do uso e abuso de drogas, mas apercebi-me de que uma determinada quantidade de cogumelos pode de certa forma abrir a mente a uma determinada perspectiva e, posteriormente, curá-la.

“Pain Is Beauty” retrata e conta-nos o processo de cura da vida. Não apenas com a vontade e ânimo de continuar com ela, quer seja ou não relacionada com a tua vida social, mas também com o aparecimento/acontecimento de algum desastre que ocorra, seja natural ou não. A vontade e a força de nos sentir-mos capazes, estáveis e protegidos. De que forma te ocorreu a ideia de escrever sobre o tema?

Um dos grandes catalisadores foi certamente a quantidade de documentários que vi, assim como reportagens sobre o tsunami e terramoto ocorrido no Japão. Não para explorar o tema, mas sim para poder compreender a sensação de experiência desse tipo de perda intensa, e de certa forma a delicadeza e forte relação entre a Terra, natureza e, obviamente, a Humanidade em si. E embora nem sempre consiga obter resposta, ou até mesmo a compreensão, acho que às veze questionar o que tem que ser questionado, pode ser, de certa forma… Uma cura.

Estou corrente que uma das tuas influências  é o black metal. Pessoalmente, considero o black metal um dos géneros músicais mais únicos de sempre. Não apenas pela música em si, mas pela sua história e background, que cria um laço peculiar, negro, cruel e misterioso por de trás de tudo isso. Lembras-te da primeira vez que foste exposta a tal género e/ou de que forma te afectou a ti e à tua música?

Sinceramente, não me lembro quem me expôs ao black metal. Talvez o meu antigo baterista Jess ou então o meu colega Ben. Acho que foi o Ben. Gorgoroth (Gaahl-era) foi uma das primeiras coisas que ouvi na altura e até hoje ainda adoro a música “Of Ice and Movement” como nunca. Há um certo conforto no ruído do black metal, que adoro.

Deixa-me dizer-te que uma das minhas músicas favoritas, das que já escreveste, é definitivamente “Virginia Woolf Underwater”, que pode ser ouvida no disco “Unknown Rooms: A Collection of Acoustic Songs”. Acho que nunca ouvi uma música que me definisse tão bem quanto a “Virginia” o faz. É triste, mas reconfortante ao mesmo tempo. É agridoce. A música, no entanto, tem alguma relação com a Virginia Woolf (escritora inglesa modernista, mais importante do séc. XX) ou apenas serviu como inspiração? Tem algum significado particular para ti?

A música não está “mesmo” no álbum, foi apenas um bonus track que me pediram para incluir. Mas conta apenas a história de como é sentir-se sem forças, fraco e insatisfeito com o suposto mundo “normal” e, de certa forma, Virginia Woolf é alguém a quem me conectei a esse nível, quando era relativamente mais nova.

Para terminar com a entrevista: estás prestes a entrar numa digressão de Outono com Russian Circles, pela Europa. É do conhecimento de todos que gravaste um track do próximo novo álbum de Russian Circles, “Memorial”. Como foi trabalhar com Russian Circles? Estás de alguma forma contente por visitar e tocar em Portugal pela primeira vez?

É verdade, nunca estive em Portugal e sempre ouvi boas coisas sobre o país. Parece mesmo muito bonito através das fotografias. Os Russian Circles são todos eles boas pessoas e bons músicos, por isso é certo que me senti honrada por participar e trabalhar com eles.