Chan Marshall reencontrou o público português no Dia de Finados – o dia em que uma espécie sui generis, vulgarmente denominada de tuga, fica a pensar na morte da bezerra. Estavam reunidas as condições para questionar se a norte-americana iria trazer o espírito de álbuns lançados antes do virar do milénio (geralmente designados por “aqueles que prestam” ou “aqueles que valem a pena”).

Num dia lúgubre em que o tal tuga descobriu que o pau de selfie também pode ser usado num cemitério próximo de si, achou também por bem marcar presença num concerto em que se anda à caça da fotografia e do croquete (expressão difundida pela Repórter Louca). O ambiente plástico e decrépito ficou, de imediato, montado com a primeira parte a cargo de algo denominado Appaloosa. Apelidar isto de coisa é um elogio! Nunca assisti a algo tão decadente. Por certo, será a narrativa de uma qualquer corrente pós-moderna demasiado sofisticada para a minha compreensão ignóbil e plebe.

Finalmente surge em palco Cat Power e, de imediato, o coração parou e surgiram todo o tipo de pensamentos judicativos e precipitados – avaliando se os anos têm sido brandos na forma como se reflectem na forma física da artista, analisando a indumentária, etc. Apresentou-se, inegavelmente, como mulher forte e emancipada capaz de dominar e preencher todo o espaço com a sua graciosidade. Confesso que nem sequer tinha reflectido acerca do formato do concerto – se viria sozinha ou com músicos convidados. Não questiono a sua competência de auto-suficiência, mas o concerto teve momentos muito aborrecidos. Principalmente enquanto se sentou ao piano. As músicas sucediam-se umas às outras numa espécie de medley e num registo demasiado monótono. Fiquei particularmente desgostado com a interpretação de “Colors And The Kids”. Uma faixa tão puramente sentida, que figura num “Moon Pix” de valor inegável, mas que pareceu ter sido despejada simplesmente porque figurava numa setlist. O relógio avançava e tudo se tornava mais aleatório. Cat Power falava longamente de forma cómica numa tentativa de fugir ao registo depressivo das composições, interrompia músicas, improvisava, etc. O público tinha também um comportamento estranho e a cantora interrogava-se se o problema devia-se a uma barreira linguística. No que toca à sua simpatia, ficaram todos convencidos e rendidos.

No dia dos mortos, houve até pessoas que desmaiaram na sala 1 do Hard Club. O público parecia comportar-se como num gás ideal. Devido à temperatura alta, o tempo médio de colisão era bastante curto. E a tagarelice do tuga também não deu tréguas aos interessados. Claro está que entre mortos e feridos, alguém se salvará. Honestamente, apenas posso afirmar que senti Cat Power em três faixas: “I Don’t Blame you”, “Great Expectations” e “Say”. Ficou assim a ideia de que Cat Power irá regressar à sua antiga essência num dia de Nevoeiro ou talvez no dia de São Nunca À Tarde…