Depois do adiamento da presença de Cass McCombs no palco do Teatro Maria Matos, no passado mês de Maio, o regresso do itinerante americano fez-se na presença de uma sala esgotada. Esqueçamos o mal que terá sido para o cantor a inoperância do seu braço e sintamos a nossa fortuna de, no entretanto, ter sido editado o seu novo duplo disco, “Big Wheel And Others”. Assim, ao contrário do que seria de supor, não houve uma apresentação extensa do seu sétimo longa-duração, mas sim o percorrer de toda a sua discografia.

Talvez a sua especialização em demolições, o tenha granjeado com o poder de entender que a doçura e os cenários musicais menos carregados também têm o seu valor. Prova disso, o começo com “County Line”, do seu penúltimo disco “Wit’s End”, longo tema de sedução bluesiana. Contudo, também lhe terá mostrado que há certas coisas que o melhor é mesmo deitar abaixo, permitindo-lhe transpor isso para “Love Thine Enemy”, um tema nada congruente com o momento anterior, muito mais puxado e baseado no espaçamento dos acordes.

Com Cass McCombs também pudemos imaginar o porquê de se entender pertença pós-nascença à Califórnia, com os ritmos da bateria de Dan Allaire e os mansos dedos sobre as cordas de Jon Shaw, em “Name Written In Water”. Ou perceber que por ali residiu um enorme groove, força e vivacidade em temas como “Big Wheel” ou “There Can Be Only One”. Mas também presenciar McCombs a puxar da sua guitarra acústica e a recuperar aquilo que de bom ocountry nos pode ainda oferecer em “Angel Blood”.

Se os seus discos já nos tinham feito sentir que não existe um campo preciso onde se possa cingir, no palco do Teatro Maria de Matos essa convicção tornou-se ainda mais viva. A sua sagacidade para testar vários pólos foi evidente. “Meet Me Here At Dawn” comDan Lead ao piano, trouxeram a clara estrutura do formato canção, da singela premissa folk, da atenção à melodia e à palavra. Se dúvidas persistissem em relação ao apego às formas tradicionais, “Mariah” e “Robin Egg Blue”, trataram de as dissipar.

Até podemos já ter ouvido reflexos daquilo que Cass nos trouxe. No entanto, não há que esconder que as suas músicas foram cativantes e muito aprazíveis. As suas apropriações são justas, as suas homenagens ao passado, sentidas e, o seu futuro, a par do seu “Sacred Heart”, risonhos.