Inverno, sei que tivemos os nossos problemas. Sei que nos chateámos, discutimos, e que no final acabámos da pior forma. Mas perdoo-te. Perdoo-te tudo. Por favor, volta.

ZDB cheia em noite de Verão para ver Cass McCombs, autor de um dos mais belos discos do ano até agora (Wit’s End), e de outros que têm merecido essa designação em anos anteriores. Expectativas tão altas quanto a temperatura sufocante de uma forte noite de Verão. Passava pouco da hora marcada quando entra Cass em palco, acompanhado pela sua banda de quatro (excelentes) músicos, não tardando a lançar algumas simpáticas palavras a agradecer aos presentes e a perguntar como se dizia “Lisboa”. O quinteto está todo pronto: baixista, slide guitar, Cass no teclado, guitarrista, e baterista. Atiram-se a County Line, primeira faixa de Wit’s End, e estava dado o mote para a noite: canções longas e graciosas, tocadass por uma banda exemplar, numa sucessão de momentos lindíssimos, ainda que nunca arrebatadores ou memoráveis, mas constantemente impressionantes na sua simplicidade tocante.

Não tardou muito a que McCombs abandonasse o teclado e se dirigisse à guitarra, trocando de lugar com quem estava anteriormente a usá-la. Tocou e cantou de pé, inclinado sob o microfone, sempre em perfeita sintonia com os músicos que o rodeavam. A slide guitar encaixava na perfeição, e o teclista saía por vezes do teclado e dirigia-se àquele belo piano da ZDB, acrescentando às canções uma camada de teclas que apenas as tornavam mais belas. E à medida que as emoções iam crescendo, a temperatura fazia o mesmo. McCombs a pedir constantemente que diminuíssem as luzes, a beber constantemente da sua garrafa de água, e as ventoinhas constantemente a serem ligadas e desligadas. Se a noite lá fora já estava abafada, lá dentro ainda mais. “I’m cool as hell”, disse a certa altura Cass com um sorriso. E é, por isso mesmo, que ninguém arredou pé, e o público se manteve devoto do início ao fim, recebendo cada canção com aplausos e assobios, e uma ou outra logo com sinais de contentamento aos primeiros acordes. A culpa não é da ZDB e sim do Verão que, naquela noite em particular, se quis manifestar demasiado. Se tivéssemos estado numa Aula Magna ou num Coliseu igualmente cheio, o calor teria atacado da mesma foirma.

Mesmo com aquele calor terrível, a noite foi decorrendo da melhor forma. A lindíssima Harmonia, talvez uma das mais belas canções de McCombs, não tardou muito a chegar, trazendo facilmente um dos mais belos momentos da noite. Mas se a escolha de Harmoniafoi audaz, o mesmo não se pode dizer da setlist no geral, que deixou algo a desejar. Tocar do novo disco a boa Burided Alivemas ignorar The Lonely Doll, possivelmente a mais bela do álbum e que o músico tocou ao vivo há poucas semanas? Crime. E foi sem dúvida uma boa surpresa ouvir a magnífica I Cannot Lie, mas onde esteve You Saved My Life? Faltaram algumas canções absolutamente essenciais ao longo de não muito mais de uma hora de concerto, num alinhamento que não permitiu à noite chegar até onde poderia ter chegado. Não que tivesse sido mau, longe disso; mas qualquer um que conheça bem McCombs sabe bem o potencial existente e que, infelizmente, acabou por não ter sido aproveitado.

Mas se a maior falha que se pode apontar é, efectivamente, a escolha de canções, então isso significa que a noite esteve bem longe do fracasso. As canções tocadas foram-no na perfeição (aquela voz e aquele baixo em Don’t Vote…), e o ritmo ia gradualmente crescendo ao longo da noite. Quando a excelenteWhen The Bible Was Wrote chegou (tão, tão bem tocada, com uma energia que não existe na versão em disco), já perto do final, podia-se já dizer que a noite estava ganha. Bobby, King of Boys Town, foi uma escolha curiosa mas acertada (outras, ainda assim, teriam-no sido mais) para encerrar o concerto. O quinteto sai do palco perante uma chuva de aplausos, e não regressa. Cassespreita para fora, sinalizando ao público que não haveria mesmo um regresso, e o bonito concerto termina. “Ainda bem que não há encore”, diz uma rapariga atrás de mim. “Com este calor, não aguentava mais”. Eu e muitos outros, por outro lado…

Concerto lindíssimo, em que a simplicidade e a eficiência dos arranjos ao vivo foram impressionantes, e em que a voz imperfeita-e-por-isso-carismática voz de Cass McCombs ecoou por uma ZDBesgotada. A qualidade esteve sempre lá, ainda que nunca tivesse chegado onde alguns talvez esperassem, numa noite de temperaturas altas… em todos os sentidos. Espera-se da próxima um alinhamento um pouco melhor e, com sorte, uma noite um pouco mais fria. Mas quem foi terá ficado, de qualquer das formas, muito bem servido. Cass McCombs é Cass McCombs, e Cass McCombs é sempre bom, seja em disco ou ao vivo, seja na Primavera, Verão, Outono ou Inverno.