Parece mentira, mas há mesmo um novo disco de Carcass! Para todos os efeitos, muitos de nós (tanto quem escreve o texto como uma boa parte dos que o vão ler) cresceram para a música a olhar para os Carcass como lendas do death metal cujo último disco havia saído ainda durante a nossa infância. Passados dezassete anos desde “Swansong” chega-nos então “Surgical Steel”, pelo que urge exclamar que não só as lendas estão de volta como o fizeram em boa forma.

Correndo o risco de estar a constatar o óbvio, convém situar a nova oferta dos britânicos na segunda fase da sua carreira, com a sonoridade apresentada a estar mais próxima de “Necroticism” e “Heartwork” do que daquela podridão toda inicial. O que não só faz todo o sentido como se ajusta perfeitamente ao que apresentaram durante os concertos dados desde 2007. Por ser normalmente uma das pessoas mais associadas a esse período da banda e por ter participado nesses concertos, é curioso que “Surgical Steel” surja sem qualquer participação de Michael Amott, sobretudo quando há uma “Unfit For Human Consumption” que é essencialmente Arch Enemy em bom.

Não sendo sequer das mais impressionantes malhas de “Surgical Steel”, é difícil ficar indiferente da primeira vez que se ouve “Thrasher’s Abattoir”. Só então é que caímos em nós e nos apercebemos que isto está mesmo a acontecer e que ainda por cima não começa nada mal. Que não digamos mais do que “nada mal” é aliás o maior problema de alguns temas do álbum (felizmente não muitos): são inegavelmente bem escritos e deixam-nos com um sorriso por estarmos a ouvir o Jeff Walker e o Bill Steer outra vez, mas também não passam muito disso. O contraponto deste problema são peças como “The Granulating Dark Satanic Mills”, malhões dignos do estatuto da banda, com aquele toque particular que tantas vezes tentou ser emulado noutras paragens.

Se quiséssemos ser picuinhas, teríamos ainda a produção demasiado limpa para atacar, mas acaba por ser uma opção justificável dada a história da banda. Ignorada essa voz interior que quer é sujidade, racionalmente é preferível ter “Surgical Steel” como é: um retrato honesto daquilo que são os Carcass hoje em dia (e como tal preferível à nostalgia pela nostalgia) e um belo disco de death metal que não só não tenta fingir que foi escrito no final dos anos 80, como é perfeitamente digno de ser inserido numa qualquer prateleira ao lado dos seus predecessores.