O nome é Ana Matos, conhecida no rap como Capicua, vem do Porto. Contudo, ontem, margens nada importaram – o feeling é universal. Este ondulou-se numa maré abundante entre o palco e a plateia que, à hora marcada, ilustrava em fila o aviso de “esgotado” à porta. No interior, o avolumar da fila lá fora justificou que ainda fosse possível uma deslocação à frontline e, no caminho, constatar um público imensamente disperso em status, onde era também notória a abundância feminina. Além de uma noite de música, arapper ofereceu-nos uma experiência visual única com a participação de Dário Cannatá (autor de todo o seu artwork) que, numa projecção em directo, foi rabiscando ilustrações para cada momento da actuação. Antes do começo, ouve-se a voz deCapicua, contando a história do sonho que originou a “Sereia Louca” e, antes de se calar, surge em palco acompanhada pela habitual M7, em ataque ao homónimo primeiro single, extinta uma forte ovação que espelhou na MC um semblante de enganadora timidez inicial.

O levantar do pano resume fielmente o decorrer restante da actuação: palpável conexão palco-público, entusiasmo genuíno e consensual, rimas na ponta da língua dispersas um pouco por todo o lado. A “Sereia Louca” prosseguiu na “Lenga” que principia o seu corpo, a cappella, paudada pelo batimento típico dos ponteiros do relógio; “Alfazema” e “Líquida”, estaúltima que se insurge numa mordaz crítica à nova tendência mundial de tornar privado um bem que em 70% constitui o corpo humano (estranho?). Depois, Capifalou dos artistas que vozes ofereceram ao seu último disco, lamentado a ausência de Aline Frazão, cuja bela voz se ouviu no refrão de “Lupa”. De seguida, é anunciado Mistah Isaac em palco para se dar inicio à fase da cauda, a parte acústica da “Sereia” que veio ressuscitar temas do estreante homónimo e das mixtapes: primeiro, foi “Vinho Velho”. “Luas” depois, dedicada às ‘mulheres que têm mau feitio matinal e, no final da barbatana, “Casa do Campo” encheu o recinto de vozes. Rapper que o é de facto encaixa palavras onde quer que seja. E Capicua é-lo: rimas e flowa cadenciar acordes partidos no scratch de D.One.

Sem quebras no entusiasmo, a intensidade modelou-se através de palavras. Estas, após o momento acústico envolto no seu sentimento, elevaram-se em força e significado pois, como disseCapicua, “a vida não é só isto”. E, foi somente com a força das palavras, que deslizaram resolutas e pesadas através da sua, que nos apertou a “Jugular”, rimada a cappella, abrindo igualmente o trilho a “Medo do Medo”. Música de intervenção cirúrgica, da rara casta de MDG e Dealema, onde M7 foi companhia valiosa, impulsionando na voz esganiçada a extensão dos versos finais, num acelerar impactante, induzido pelo beat veloz em estilo drum&bass. Dos mais fortes momentos da noite. Que continuou, desta feita, pela emoção nas palavras que compõem os poemas de “Soldadinho” e “Mulher do Cacilheiro”. Onde, primeiro, Gisela Joãoentrou e cantou um murmúrio denso, não obstante quente e definitivamente enternecedor; segundamente, apraz-me apenas, que: mais bonito que uma escrita bonita, é nessa escrita ser a voz de quem nunca a teve, e assim, o puro feeling emerge. Ficou no ar, tal como no fim, a voz de Elis Regina.

Depois do sentimento e emoção das palavras (que, por sua vez, transpiram através de opiniões por elas seleccionadas, e por nós recebidas mediante identificação – e esta, por seu turno, depende do que cada um carrega dentro da cabeça), veio o puro rap. E, apesar do anterior referido igualmente o ser, se lermos a entrevista de Xeg, sabemos que a auto-afirmação através dos skills é a génese do dito rythm and poetry.

Então, agora sim, dedicada a todas as mulheres, é “Mão Pesada”: duas gunas convictas e aguerridas, sem papas na língua, de flowríspido e irreverente. De seguida, recuou-se até 2008 com “Lingerie”, da mixtape “Goes Preemo” e, cuja descrição, encontra-se no apelo de Valete na intro do som, a qual cito: “Vê se tiras o microfone a esses rappers! Dá-lhes lingerie…”. Sucintamente: uma demonstração de skills com potencial de fazer corar metade dos mais durões rappers tugas. O mesmo serve para “Tabu” e M7, que ofereceu o tema da mix “Marta Ataca”, ao som do estonteante beatde “Break Ya Neck”. O final, esse, já se fazia adivinhar pelas bocas dos convivas, que levaram Capicua a questionar “as vocês sabem o que isso é?”. E sabiam (a nossa fonte) “Vayorken”, vocábulo substituto para Nova Iorque aplicado pela pequena Ana e que, numa original abordagem àquele invariável (quase obrigatório)back in days do hip-hop, terminou num contagiante refrão elevado pela feliz e nostálgica aura dos oitenta.

Perante a repenicada ovação de fronte, Gisela João surgiu em palco e surpreendeu tanto M7 como Capi, com um enorme ramo de flores oferecido a ambas, e assim, três mulheres do norte sáiam de palco. Talvez tenham sido as flores, a enchente ou o purofeeling que recepcionou a nortenha em Lisboa. Certo é que ela voltou, dizendo que não é costume mas “hoje tinha mesmo de ser”.

E, no final, Capicua revela qual o seu maior trunfo: novamente a força das palavras, a confirmarem uma consciência política dissidente e assertiva nos versos arremessados como se fossem “Pedras da Calçada”.