O corolário ideal para um grande concerto? Provocar um incêndio no amplificador de guitarra. De repente, o Santiago Alquimista embebeu-se em fumo e sentiu a fragância do esturro, vinda de um amp que não encontrou forma de suster a abrasiva riffaria dos canadianos e que, exaurido, se entregou às chamas. Cenário coerente, diga-se: dentro do hardcore, dificilmente haverá uma banda que preze tanto o espírito southern/stoner. Olhando somente para o guitarrista, poder-se-ia julgar até que tínhamos os Sourvein ou os Black Tusk no palco.

Mas não. Não são provenientes do sul dos Estados Unidos, nem fazem da vagarosidade rítmica a sua principal característica – quer dizer, de vez em quando lá encetam tours onde se intitulam Bat Sabbath e onde só tocam malhas da banda de OzzyIommi. Em Lisboa, porém, tivemos direito, em estreia absoluta na cidade, aos Cancer Bats no seu formato original. Com o recente Dead Set On Living a servir de rastilho para o concerto, os canadianos despejaram uma dose de hardcore cheinho de groove, adornado pela felicidade evidente (e afirmada) do vocalista Liam Cormier em tocar pela primeira vez em Lisboa. Não só se fartou de elogiar e pedir desculpa por nunca cá terem vindo, como andou quase sempre grudado às primeiras filas, libertando a rodos o seu suor e saliva. Que se lixe, ninguém se importa. Tudo nos parece bem ao som de Sleep This AwayTrust No One.

O southern hardcore dos Cancer Bats é tão festivo que há gente que se ri depois de entornar copos cheios de cerveja no chão do Alquimista e é tão despreocupado que a banda comemora, lá está, o inusitado incêndio que colocou o amplificador de guitarra na enfermaria mais próxima. “The motherfucker is one fire, yeaaah!”, berrou Liam sorridente, para cinco minutos depois, e feita a devida substituição de material, o riff de Hail Destroyer precipitar Lisboa para o derradeiro bailarico, onde a novinha R.A.T.S. foi o enclosure ideal. Como quase sempre acontece com as bandas que se estreiam tardiamente pela capital, os quatro tipos de Toronto saíram de palco arrependidos por nunca nos terem visitado antes. Estudassem.

Como é habitual, coube a uma selecção nacional fazer as honras da noite – desta feita, um triunvirato que se fez iniciar pelo deathcore dos For Godly Sorrow. Olhando à reacção do ainda parco público, a rota musical dos lisboetas parece encaminhar-se para bom porto, onde os musculados e esbofeteantes breakdowns ditam os principais traços de navegação. Houve espaço para apresentar várias malhas novas e, mesmo essas, já tiveram direito a sing-along, sinal de que a popularidade do grupo atravessa bons dias.

Sing-alongs e outros moves adjacentes não se viram durante Don’t Disturb My Circles. Mesmo que alguém os pretendesse executar, acabaria por um levar um nó cego do ritmo inconstante perpetrado pelo quarteto. Cite-se Botch, cite-se Dillinger Escape Plan, cite-se quem se quiser no dito estilo math/chaotic: a verdade é que os DDMC fazem um dos mais singulares sons da cena nacional, mesmo sabendo que é difícil triunfar e agarrar o público sem utilizar os tradicionais ganchos. Ainda assim, talvez uma segunda guitarra pudesse oferecer mais consistência à banda.