Domingo à noite e está lua cheia, hora de jantar para muitos. Uma considerável multidão apinhava as imediações da alameda universitária. Estacionam-se veículos, dirigem-se depois para o aglomerado, outros que não arranjaram lugar perto (ou, de proveniência desconhecida) surgem como que do vazio. Poucos vão emergindo a conta gotas pela escadaria do metro. À porta, e perto dela em suma, fuma-se. Veêm-se cigarrilhas várias e alguns charutos como faróis fedorentos. No interior, também se embrenharão diferentes tons mesclados, blues e ventos de jazz, no prog da veterana banda britânica. Não mais que cinco minutos passaram das 20h30 quando surge em palco, perante uma Aula Magna repleta. Antes de entrar, claro, peguei na onça Camel e enrolei enriquecido pelo mais fino aroma.

É sabido que a primeira parte da actuação se fará somente em torno do clássico “The Snow Goose”, de 1975, re-gravado em 2013 numa versão alargada. Inicia-se em tons azulados, teclados e bateria soltos, dados a mudanças; Andrew Latimer, também ele, permuta entre a flauta e a guitarra. Dança-se numa corda bamba de rock sinfónico e grossas pinceladas de blues. Psicadelismo intimista que não possibilita o cochilo convidativo dos confortáveis cadeirões, pela sinfonia estridente de teclas súbitas e bateria que supreende ao despontar em groove, induzido pelo baixo de Colin Brass. Outra das razões era haver muita luz, razão também do dito intimisto ser complicado atingir em pleno nesta sala. Vários foram os momentos destacadamente ovacionados, o ínicio com “The Great March”,“Sanctuary”, “Migration” ou, perto do final, a bela “La Princesse Perdue”. Basicamente todos os momentos em queLatimer se entregou à guitarra, qual menino a brincar aos blues, movimentando o corpo ao som das cordas e sorrindo. Intervalo, enorme ovação, debandada. Azáfama, fila no WC dos homens. Uma porta aberta e para sair precisa-se ticket. Fila para sair, manada sedenta por pasto, existem saídas de transportes mais cordiais em hora de ponta.

Durante um pouco mais de quinze minutos novamente uma multidão invadiu as redondezas da nocturna cidade universitária. Agora, é a parte dos gratest hits. Antes de começar, Latimerintroduz o diálogo que já nos caracteriza como público e que poderá ser considerado cliché ou simplesmente gráxa. Interpretações são de quem as tem, no entanto. Verdade é que os Camel foram saudados por uma recepção intensa e repenicada, quem sabe foram os anos. Foi em 1979 a sua última pisada por palcos lusos. Na noite de ontem, a compilação de marcos iniciou-se com “Never Let Me Go” do disco homónimo, saído em 1973. Segmento da actuação onde as vozes de Latimer e Brass foram considerávelmente mais utilizadas, em faixas mais convencionais, contrastando com a formação que a momentos teve o bateristaDennis Clement no baixo, indo o seu dono para a guitarra quandoLatimer se encarregava da flauta. Comparativamente às bandas da época e estilo os Camel apresentam continuidade, algo expresso no salto cronológico de “The Hour Candle (A Song for My Father)” de 1996 e mais ainda no falso final com “For Today” do mais recente registo, “A Nod And A Wink”, saído em 2002. Perto do fim, é o baixista que se dirige ao público apelando à sua imaginação completamente livre, disse: apenas com a premissa de ‘sozinho’ e ‘colina’, ou algo. Ao som de “Fox Hills” fez sentido. E depois de alguns minutos de palmas estaladiças e vigorosas, em pé, surgem novamente os músicos para a inevitável “Lady Fantasy”, recheada de névoa, entre o psicadelismo sinfónico e os blues de Latimer, que levam a melhor e encaminham a actuação ao seu final, embalado pelas palmas ao ritmo do excelente riff.