Há qualquer coisa irresistível no niilismo debitado por Rust Cohle no icónico discurso do primeiro episódio de True Detective. Nem sequer é muito arriscado conjecturar que a simpática proposta de um lento suicídio colectivo para a espécie humana marca o momento que agarrou definitivamente muitos dos que viram a série. A força do discurso é tal que em menos de um ano já foi usado em “Gods”, última colecção de stoner javardo dos Herder, e agora neste “Setter Of Unseen Snares” dos Caïna. Apesar de duas entidades marcadamente extremas, as diferenças de abordagem e sensibilidade notam-se sobremaneira no tratamento dado aosample. Seco e directo para os Herder, a tornar a introdução numa chamada às armas de dedo do meio em riste, trabalhado e subtil com os Caïna de Andrew Curtis-Brignell (ACB), invocando mais desespero do que propriamente ódio abjecto.

Enquanto Cohle sugere extinção, Curtis-Bringnell explora as consequências da mesma e conta a história da última família na terra, perfeitamente ciente do vindouro cataclismo. Para ouvinte, tudo se processa num ápice, passando apenas um quarto de hora entre a aludida introdução e o começo de “Orphan”, monumento de aceitação e melancolia que dura tanto quanto o resto do disco e o encerra com incursões por toadas mais ambientais, algum gótico e post-black. Pelo meio, quatro bojardas de black metal que tanto se atiram a pés juntos às influências hardcore de ACB como invocam uns Nachtmystium em boa forma (continuemos a fingir que “The World We Left Behind” nunca aconteceu), sobretudo pela forma como os sintetizadores são usados – a urgência sentida em “Applicant / Supplicant” é disso bom exemplo, fruto também de um insidioso lead e da forma como ACB ruge o motto “we are the damned”. Também na voz o músico britânico exulta confiança, notável na forma como transmite vocalmente a turbulência mental que se propõe explorar.

Referência ainda para as participações vocais de Vice Martyr (Hateful Abandon) e Lawrence Taylor (Cold Fell, entretanto passou a membro permanente dos Caïna) em “Orphan”, e do português Michael Ribeiro (ex-Lifedeceiver, actualmente nos Old Skin, que actuam no Burning Light Fest para a semana) no tema título, numa das mais violentas prestações que já o vimos assinar.

Independentemente de preferências pessoais poderem ir em direcção ao black metal mais cru de um “Earth Inferno” ou do furacão de esquisitice de “Hands That Pluck”, admita-se que “Setter Of Unseen Snares” é de certa forma o mais bem conseguido disco de Caïna até à data: a escrita é  extremamente fluida e a abordagem diversificada mas bem enquadrada no tema, que de forma notável evita todas as armadilhas de pretensiosismo que um álbum conceptual implica. Resulta antes num disco que funciona perfeitamente como uma peça única mas que não deixa de ter grandes malhas – a “I Am The Flail Of The Lord” é daquelas que quando entram na cabeça não saem de lá tão cedo.

Enfim, que seja este o disco a convencer um público mais vasto daquilo que quem vem acompanhando a carreira de Andrew Curtis-Brignell já sabe há algum tempo: em termos de black metal de origem britânica, Caïna são um nome absolutamente incontornável.