Elvis Presley + crust? Burning Love. Não, não é assim tão simples e linear; nem sequer lógico. Vamos por partes: o nome da banda provém desse tema clássico interpretado pelo ídolo norte-americano. Já o crust faz-se recordar a partir da voz de Chris Colohan. Berre ele aqui ou na monarquia da Suazilândia, remeterá ad eternum para essa banda incrível que era Cursed – composta por tipos que já em 2003 davam magnas lições de como vilipendiar o hardcore com torrentes de sludge.

Os Burning Love são resultado da sua (triste) extinção. Colohan coligou-se a três músicos dos também canadianos Our Father e partiram em direcção ao rock, adjectivado com (in)decência: puro e duro. Songs For Burning Lovers, primeiro disco de carreira, editado em 2010, confirmou essas intenções e descortinou uma banda disposta a despejar um feeling punk regado a Jack Daniels. Reputado por farejar tudo o que há de bom e agressivo com um toque southern, Greg Anderson afixou-os na Southern Lord e deu-lhes um “centro de estágios” para o segundo álbum. Resultou. Ah!, se resultou.

Rotten Thing To Say é um exemplo perfeito de como é ainda possível fazer um grande disco de rock n’ roll, com a indispensável atitude “fuck off” e toneladas de groove. E, apesar de longe daquilo que os Cursed ofereciam, é impossível não notar que as fundições do hardcore estão também cimentadas nos Burning Love (Pig City II Tremors), com uma diferença gritante: a guitarra não se preocupa com chuggs básicos e deslavados. Pelo contrário, Pat MarshallAndrus Meret oferecem com distinção uma série de riffs e solos com raízes no blues, tecendo a composição dos canadianos a berrantes nuances quasi-stoner. Irrefutavelmente enérgico, os Burning Love têm em Rotten Thing To Say uma daquelas ideais bandas-sonoras para uma noite de copos e demais excessos – The Body quase nos empurra para o shot de Jägermeister mais próximo, com Colohan a pelo meio gritar “close your eyes // crawl inside”, num tom de quem vislumbra que o serão pode muito bem terminar numa sessão de pugilato.

Munindo-se do fiável Kurt Ballou na engenheria (ele, sempre ele), os canadianos conseguiram logo à sua segunda tentativa um dos melhores álbuns rock/punk do ano, por onde verte não só o álcool, como toda a raivosa bílis do hardcore. E quem melhor para a cuspir do que Colohan?