Já andamos nisto há tempo suficiente para reconhecer que o Burning Light não foi outra vez arroz. Pregando olho de soslaio no flyer, e aconchegadinhos por aquele friozinho centro-europeu que este ano meteu férias no sul, mais parecia estarmos nalgum festival alemão ou beneluxiano. A maior percentagem do cartaz nunca em Portugal tinha metido os pés e o público nacional também não os reconhecia de outros verões e folias. Quando assim é, hat’s off, pois tê-los no sítio para arriscar é virtude de poucos.

De estômago abençoado pelas minis do Continente, vimos a estreia dos Wells Valley em palco. Uma estreia – sim, em itálico -, que as três figuras deste novo projecto têm em cima muitos outros carnavais. Ao “Matter As Regent”, descrito por aí como post-metalmeets Gojira, reconhecemos muita paleta mas pouca originalidade. O som mastigado e baço tornou-se para o fim tão caricatural como a imagem de um baixo de seis cordas cuja maioria das notas era em corda solta.

Wells Valley

Até aos Tombstones, que nos resgatariam da ataraxia com a “The Bit” dos Melvins e um chorrilho de bons riffs setentistas, as liturgias de Redemptus clamaram por mais sangue de cristo e outros sacríficios judaico-cristãos; sem eles, ficou difícil abandonar o estado bardicinético a que nos indirectamente votámos naquele início de tarde. Sim, os Tombstones foram como perfume de almíscar para nos despertar, e também uns queridos por terem ocultado o cancelamento de Plebeian Grandstand. Confirmaríamos no dia seguinte, uma vez mais, que são uma grande banda.

Redemptus

Tombstones

Casamentos, ventos e tratados geopolíticos não são coisas que gostemos de importar na vizinha Espanha. E, talvez pela dieta mediterrânica, eles adoram meter azeite em tudo o que é música. Há poucas excepções – Moho? – e os Adrift, pese embora ali uns tremeliques a descambar para o post-metal masturbatório, conseguiram fazer-nos lembrar dos Supercontinent quando nos States andava tudo a snifar discos de NeurosisISIS. Concerto sólido.

Adrift

Hierophant

Quando transposto para palco, o som musculado dosHierophant acaba por tender para terrenos mais virados para o death metal arrastado e obscuro – talvez pelo guitarrista ter agora assumido os vocals -, mas sem dúvida que o tom malicioso de “Peste”, trabalho do ano passado, acaba por estar bem vincado. O som algo confuso acabou por anular algum do efeito de temas como “Masochismo”, mas foi o primeiro atropelo de sábado.

Mutilation Rites

A primeira proposta definida como (maioritariamente de) black metal, mostrou que o som dos Mutilitation Rites acaba por ser um pouco mais do que isso, mesmo sem se desviar em demasia (até para o seu próprio bem) de vários cânones do género. “Harbringer” de 2014 caminha essa linha entre a acessibilidade e a ortodoxia sendo que a experiência ao vivo tende para um misto que acaba por incorrer em alguns crimes a essa mesma ortodoxia, como as atmosferas à lá Nachtmystium ou um baterista que de forma furtiva ia fazendo uso e abuso da síncope para quebrar a habitual brutalidade e introduzir uma dinâmica que só enriqueceu o ritual. A atmosfera gelou completamente dentro do RCA naquele que foi o momento alto do primeiro dia.

Mutilation Rites

Talvez tenha sido cansaço ou simplesmente o facto de o agnosticismo se ir impondo face às preces que vão impulsionando uma banda que não obstante os bons momentos (e isso deve-se sobretudo aos riffs) parece ter mais a bênção de alguma Vénus do que algo realmente apelativo que justifique a romaria. Os Oathbreaker, e já os vimos tanta vez, parecem-nos a cada concerto mais esquálidos e sem aquela pica que lhes rubricou entrada na Deathwish. Foi quando houve mais gente em frente ao palco, mas foi também quando mais sentimos que a uva é pouca para uma parra que se agiganta.

Oathbreaker

The Secret – o nome que fechou o dia acabou por se ficar pelo meio da tabela. A mistura de black metal e grindcore foi um varrimento de respeito, mas tirando o excelente baterista, a memória do concerto será curta. Quando lhes metemos a vista em cima na cidade de Londres – e nessa altura tinham para aí quinze mecos a vê-los -, foram de um belicismo tal que chegámos a temer que o vocalista nos fosses às ventas.

The Secret

Em Lisboa, houve uma meiguice demasiado prolixa no discurso – talvez por ser a primeira vez em Portugal – e a guitarra do Bertoldini soou como se alguém lhe tivesse despejado clorofórmio nas cordas. Anyway, aquela “Cross Builder”, nas condições certas, é uma malhão como há poucos e não admira que “Antitalian” tenha causado os únicos encontrões e stage dives de todo o fim-de-semana.

The Secret

Já os Black Bombaim, adicionados como a surpresa do cartaz, cumpriram e demonstraram mais uma vez a capacidade de se ir adaptando aos vários ambientes onde estão inseridos. O psicadelismo reinou no fecho do dia.