A noite de ontem foi recheada de riffs, mas nem tudo se resumiu ao manuseamento da guitarra em palco. Os concertos de Russian Circles e Boris trouxeram-nos uma deliciosa quantidade de pormenores refrescantes, ideais para uma noite sufocante de verão – ou, pelo menos, o indicado para apagar das ideias da audiência a vontade de aguentar um calor quase insuportável com pouco movimento e à procura das brisas do ar condicionado.

Foi, apesar de tudo, uma capacidade que os checos Saade não tiveram inteiramente. Apesar da capacidade quase seminal de utilizar o fuzz na guitarra, perderam, por ventura, por não trazerem muito mais do que um riff bom por música. Têm a tarefa complicada de o fazer apenas a dois, mas têm a obrigação de tentar superar-se e, por vezes, pareceu que o caminho a seguir foi o mais fácil, o do ruído. As boas ideias estavam lá, mas foi um concerto que não esteve, nem de perto nem de longe, ao nível do que se seguiria.

O que não é, de todo, anormal, se tivermos em conta com os cabeças de cartaz eram os míticos Boris e que, imediatamente antes, estavam os Russian Circles com a sua abordagem única ao rock instrumental. Estes últimos trouxeram um baixo a mais para a proposta de formação dos Saade, mas a diferença é abismal, principalmente quando o guitarrista Mike Sullivan é magistral no que diz respeito a utilizar loops. E, claro, essa não é a única coisa em que os Russian Circles são magistrais: há o demolidor som de baixo de Brian Cook, sempre essencial em qualquer momento de arranque e, para sermos justos, sublime sempre que se fazia ouvir, e a bateria tecnicamente complexa e bem ornamentada a segurar, não sem exemplo, a música sem mais acompanhemento, como só Dave Turncrantz parece conseguir fazer.

O trio de Chicago dividiu irmãmente o alinhamento que apresentou por toda a sua discografia e brindou a sala praticamente lotada com uma música nova. No entanto, quando se tratou de deixar uma memória nos presentes, a jogada foi segura e uma aposta certeira, principalmente a julgar pelo que aconteceria a seguir, com Death Rides a Horse a encerrar a actuação dos Russian Circles.

Os Boris, por seu lado, deixaram claro que iam dar uma actuação a dividir igualmente pelos dois novos registos quando anunciaram o início do concerto com as sirenes que se fazem ouvir em Flare, doNew Album, mas seguiram, sem hesitação, para o momento de riffaria do seu alinhamento com a faixa de abertura de Heavy Rocks, Riot Sugar. Acompanhados por uma quarta guitarra, de Michio Kurihara, Wata, Takeshi e Atsuo proporcionaram cabeceamentos unânimes por toda a plateia, culminando comStatement – e foi aqui que os nipónicos marcaram uma posição que acabaria por fazer quase metade do público abandonar a sala e deixar uma meia dúzia considerável a gozar, literal e grosseiramente, com a banda em palco; não sabiam eles o que os aguardava no fim.

Ficou provado, durante a prestação dos japoneses, que eles eram algo de especial quando conseguiram mudar dos momentos de maior peso, que os tornaram conhecidos, para a sua faceta mais pop e dançável, que têm vindo a explorar com Attention Please, sem uma quebra absurda do raciocínio que tinham vindo a apresentar. Ou seja, não foi um sobressalto quando, a meio do concertos dos Boris, se começou a ouvir o bombo típico da electrónica de Party Boy ou a voz de Wata, mais angelical, a sobrepor-se aos gritos animalescos do baterista Atsuo, em Spoon, sempre com sons de sintetizadores completamente espaciais. E não foi de estranhar, também, quando, mesmo no fim, os resistentes deram por si a levar com a camada sónica de peso, lentidão e beleza que é Aileron.

Ficou provado, na essência, que os Boris são maiores do que os preconceitos. Não se ouviram poucas vezes coisas como “faltou o single do Pink” e ficou claro que não era de algo assim que a audiência estava à espera. Mas é certo, sim, que não ficou a faltar nada: houve Smile, com Statement e My Neighbor Satan, houve música pop e electrónica boa, muito boa, e houve o peso demolidor de Heavy Rocks, encarnado em Riot Sugar e na tão à moda do doom, mas tão mais bela, Aileron. Quem desistiu a meio, perdeu uma hipótese de aprender a não esperar mais do que uma grande actuação, mais do que uma actuação de um só género, de um só tipo de música, algo que os Boris, ao longo da sua discografia, nunca conseguiram ser. E ainda bem.