É inevitável. De cada vez que vejo um concerto do Bonnie Prince Billy fico com a sensação que estou a testemunhar a segunda vinda de Cristo. Ou pelo menos a assistir à divisão das águas do Mar Vermelho em dois. Qualquer coisa do género canónico. Mesmo quando o concerto não é perfeito – como não o foi na Sociedade Portuguesa de Geografia, o ano passado – o tipo consegue deixar no ar a impressão de que acabou de fazer algo que devia constar nos livros de história de todo o mundo.

Ao contrário de outras aparições em Portugal, desta vez o Bonnie– sinto-me sempre tu cá, tu lá com ele – subiu ao palco de um Maria Matos esgotado e expectante com mais cinco músicos. Ou antes, cinco amigos de longa data que, aparentemente, fazem com que o homem seja mais Conway Twitty e menos bardo das trevas.

Em termos musicais isso faz com que a densidade ouvida em The Letting Go ou a negritude de I See a Darkness se dissipassem e deram lugar aos ritmos gingões que se ouvem em Wolfroy Goes to Town ou Beware. Em termos pessoais, tornou o Will alguém mais confiante, capaz de projectar ainda mais o seu carisma deixando um pouco de lado aquela faceta de lobo solitário. Ainda estou a tentar perceber se tenho ou não pena que tudo isto tenha ficado para trás, já que foi exactamente isso que me atraiu nos discos do Bonnie.

Foi inevitável não me sentir um bocadinho traído quando comecei a ouvir temas como No Match, I Don’t Belong to Anyone, Easy Does It, You Want That Picture, So Everyone, Troublesome Houses. Principalmente quando estas se apresentaram com roupagens country, mais longe daquilo a que estava habituado. Mas ainda assim, com a ajuda de Angel Olsen e com a voz de Bonnie, entusiasmante quando tinha de o ser, chamativa e sensível sempre constantemente (tal como a conheci), fui recomeçando a ver nele aquela espécie de (anti) Messias que sempre lhe vi. Principalmente por causa daquela confiança, daquela exuberância que, no fundo, acabo é por invejar.

A sério, mesmo com a calvície avançada, o bigode farfalhudo, o acariciar das zonas erógenas e os trejeitos de boneco andrógino manietado – que contrastam profundamente com o traje aprumado ostentado ontem à noite – há qualquer coisa que me leva a que a devoção por Will Oldham (o verdadeiro nome de Bonnie ‘Prince’ Billy) seja quase feita às cegas.

Lá no fundo, passei as mais de duas horas a aceitar a facetaamericana de Bonnie, sempre sensível e extremamente bem complementada pela guitarra de Emmet Kelly. Lá no fundo, estive sempre à espera de ouvir I See a Darkness e Another Day Full of Dread e quando finalmente chegaram, mesmo com novas vestes, apercebi-me que já via novamente naquele homem confiante e sorridente o bardo negro que ouvi pela primeira vez há uns oito anos.

Mesmo com dois encores intervalados pela música de roadbar do faroeste, o sentimento de sublimidade que se foi impondo não mais sairia. Nem a catarse que se deu com este novo homem que afinal é a mesma lenda de sempre.