Num Teatro Aveirense a rebentar pelas costuras, esperava-se, com alguma ansiedade, o senhor William Oldham (mais conhecido por nós como Bonnie ‘Prince’ Billy). E ninguém teve de aguardar muito tempo.

Pouco passava das dez da noite, quando sobem ao palco Susanna Wallumrød(vocalista do projecto norueguês, Susanna and The Magical Orchestra), acompanhada pelo guitarrista Emmett Kelly. Os dois músicos, que formam os The Cairo Gang, participaram no processo de gravação do novo álbum de Bonnie ‘Prince’ BillyThe Wonder Show of The World, disco que o mítico da folk veio, precisamente, apresentar nesta visita ao nosso país. Porém, numa noite de surpresas, o palco foi preenchido por mais duas caras: Shahzad Ismaily (baixista dos Secret Chiefs 3, mas que só viria a entrar em palco na segunda parte) e pelo próprio… Bonnie Prince, que iniciou logo a sua presença, actuando ao lado da suposta supporting band.

No piano Yamaha, Susanna começa a desfilar, lentamente, canções que nos projectavam para um cenário de banda-sonora cinéfila – só faltavam mesmo os filmes, mas esses, pelas suas caras, o público ia, certamente, criando-os na sua cabeça. As vozes tristes de Susanna e de Bonnie – que, nesta parte do concerto, se manteve sempre na mesma posição, cabisbaixo, compenetrado – completavam esse filme cheio de doçura-melancólica, musicalmente perfeito. Pelo caminho, foram percorridos alguns originais do cantor norte-americano, como Strange Form of Live(sempre secundados pela voz de Susanna, que nos faz lembrar, em certa maneira, a da islandesa Björk). E leve, levemente, a guitarra semi-acústica de Kelly uivava acordes simples, daqueles que nos marcam e que nos calam com uma sensação de acalmia.

Entre risos, Susanna apresenta a banda, perguntando à sua audiência se esta está a ter uma “good time“, respondendo, imediatamente, antes de ter o feedback, que os músicos também estão. Quase emocionados, negros, os artistas, ao som do piano a medo de Susanna – tocado suavemente, como quem pisa as folhas secas do Verão -, levaram-nos numa viagem rica em mensagem, em solos de guitarra tocantes e nas vozes quase sussuradas dos cantores (em algumas canções, Kelly também executa osback-vocals).

A esta altura, o público já aplaudia de pé, mas o melhor estava, claro, para vir. Passado um curto intervalo, volta ao palco, agora como intérprete principal, Bonnie ‘Prince’ Billy. Animado, o singer-songwriter começa a sua actuação com Troublesome Houses, canção que inicia, precisamente, o seu último registo de originais. Descontraído em palco, Billy dá muito de si, como um maestro que controla a sua orquestra, com uma linguagem corporal contagiante, que não pára, ora aos saltinhos, ora de mãos erguidas.

O baixo, incrivelmente acertado, mais Kelly e a sua guitarra continuam em cena, desta feita adicionando um certo toquezinho a grunge, aos blues-folk das canções. Sentimo-nos, verdadeiramente, americanos dentro do Aveirense, numa qualquer vilazinha do interior do grande continente. Sejamos benvindos, então, porque a saga vai continuar.

Em 90 minutos de concerto, há tempo para tudo: para a melódica ou para a guitarra que Bonnie ‘Prince’ Billy “saca”, pontualmente; para os seus gritos que nos rasgam a alma e para um revisitar quase completo de The Wonder Show of The World. Assim,Where The Wind BlowsGo Folks Go That’s What Our Love Is foram alguns dos temas que encheram os corações, sem meias-medidas.

Aliás, além de ser curiosa a inversão de papéis entre Susanna e Bonnie nas primeiras e segundas partes, há outra coisa importante de destacar: para o cantor são as pessoas quem fazem os lugares, pois, a maioria das suas canções, têm como objecto um “tu” ou um “ela”, quer seja no amor, na amizade, ou nas mensagens de esperança e de força das suas letras.

Já em encore – longo, muito potenciado pela reacção hiper-entusiástica do público -, houve tempo para clássicos como I See a Darkness ou Love Comes to Me e para uma actuação brilhante, só com Bonnie e Kelly nas extremidades do palco – e nós com medo que eles caíssem -, olhando um para o outro e cantando da alma, accapella.

Depois de elogiar o teatro, a noite, a cidade, o país e os organizadores dos dois concertos (Sérgio Hydalgo, da Galeria Zé dos Bois, onde o músico tinha actuado um dia antes, e Pedro Jordão, director artístico do Teatro Aveirense), Bonnie Prince despede-se perante um público que, de pé, lhe presta a maior das ovações possíveis (será que não caiu mesmo um bocadinho do tecto da sala principal do Aveirense?).