Apesar de contarem com mais de duas décadas de existência, osBohren & Der Club Of Gore não têm mantido uma profícua permanência no espaço das edições. Estranhamente isso não tem servido como consequência de um afrouxar de interesse e de lembrança do quanto são importantes as composições dos germânicos. Por outro lado, assim como se mostram, também parece que com rapidez precisam de regressar ao seu espaço. “Piano Nights” traduz essa sensação, de que a zona dos Bohren é muito própria, privada e que dificilmente somos congregados para uma percepção global do quão é eloquente tudo aquilo que conseguem construir.

Se as noites podem ser do piano, a neblina, o amanhecer, o entardecer e a penumbra são do auge que se atinge com o saxofone de Christoph Clöser. Tudo se transforma quando expira o primeiro sopro e as emoções que transporta são tantas que se torna incompreensível percepcionar a forma como se apropria do nosso momento. O mais respeitável em “Piano Nights” é o transpirar de simplicidade, tornando quase irritante perceber como é possívelgerar tamanho encaixe com tanta subtileza e harmonia na apropriação dos instrumentos. Enquanto não nos conseguimos desligar do sopro solene no saxofone, o dedo delicado no piano e o toque benigno das escovas no tambor, quase fazem esquecer e reduzir à insignificância injustiçada a ambientalidade que opera na retaguarda.

Se “Dolores”, o penúltimo longa-duração, já mostrava tendências prementes para se tornar uma referência, “Piano Nights” suporta nas suas nove músicas algo sagrado e intocável. Apenas constituído por virtudes e pelos mais belos sentimentos, o regresso dos alemães alcança aquilo que muitas vezes temos tanta dificuldade em conquistar: o mais puro dos estadios. Quem diga que a música não é capaz de mudar de imediato aquilo que nos move e colocar de lado aquilo que nos perturba, não poderia estar mais enganado. “Piano Nights” alarga o seu sentido a uma terapêutica e torna-se mais importante que muitas palavras de conforto e pertença que possamos ouvir. Imaginar que quatro indivíduos num lugar distante podem criar tanta proximidade com as nossas vivências e dia-a-dia é incrível. Talvez nem eles tenham essa noção.