Sanguinários desde os primeiros segundos, há algo na forma como os Bloodiest fazem música que não os coloca no patamar de violência dos assassinos de ocasião. O colectivo norte-americano é definitivamente louco, com uma apetência clássica para procurar as vísceras, de uma forma quase erudita, digna de uma descrição sádica, ou de um poema de Isidore Ducasse, com os pormenores arrepiantes todos na flor da música que fazem.

A conjugação de elementos que compõem Descent consegue munir o álbum de uma capacidade única: a de fazer com que a sua audição seja, realmente, uma descida ao inferno – dantesco por consequência, e acessível aos menos duros. Nada surge como seria verdadeiramente de esperar, nada é o que realmente parece com esta descrição – desde o piano, presença constante e ora enternecedora, ora assombrosa, à voz, completamente hipnótica e fora de si. As guitarras, aqui com um tremolo picking típico do black metal, ali a explorar melodias quase eruditas – compondo momentos que uma banda de post-rock estragaria com milhares de efeitos – também não têm riffs para trazer à parada da banda de Chicago. Para os Bloodiest as coisas são tão boas quanto cruas, e é nessa forma rude de ser, tão cruel, que surgem as agressões ao piano, a levarem a música a espancar, com a ajuda da bateria, o seu estilo até ao doom, sem no entanto lhe retirar qualquer pedaço de beleza.

Esta, em Descent, é directamente proporcional à dose violência – mas de uma forma que faz com não seja um registo metal, puro e gritante, apenas cru e voyer, com incursões de guitarra verdadeiramente cativantes, a roçar, em Coh, um flamenco, e a atacar para um período pré-barroco com Pastures, que fazem das ideias mais gore situações dignas de apreciação inquestionável no nosso imaginário. Algo tão perfeitamente conseguido na transformação da criatura Dead Inside, que acaba por se revelar um bicho de sete cabeças, capaz de levar ao headbang mais induzido pelas ricas melodias de piano do que pelas guitarras e pela bateria.

Chegada Slave Rule e, finalmente, Obituary concluímos que o pior deste registo dos Bloodiest é a sua curta duração. Por conseguirem enlevar o ouvinte tão facilmente nas suas construções, góticas, épicas, cheias de adornos, mas frias como pedra, não é possível chegar à última faixa sem vontade de repetir a experiência de ser gárgula no monumento que é Descent e ver o colectivo a expor a sua loucura no pedestal que fizeram para si mesmos. E a experiência repete-se, sem nunca se repetir, alimentando-se de diferentes facetas de audição em audição.