O desprendimento toma conta dos Blind To Faith. Nada estimulados pela alheia opinião, vivem à margem até da cena belga, da qual pressupunhamos serem próximos. Não são. Vince, guitarrista (baixista nos adormecidos Rise And Fall), conta-nos que o optimismo da Church Of Ra lhes faz um bocadinho espécie. O epíteto “feios, porcos e maus”, por seu lado, cai bem. Aproveitando a deixa levantada pelo portentoso (e curto) EP “Under The Heptagram”, aborrecemos o quotidiano de uma das mais cruas e grosseiras entidades da actual música pesada. E rimo-nos com isso. Desejamos-lhes boa aventura com os Nails, daqui a dias, no Reino Unido.

A vossa falta de pretensiosismo assenta-vos que nem uma luva. É óbvio que se estão nas tintas para a originalidade. Há, sequer, algum objectivo para os Blind To Faith?

O principal passa por entretermo-nos, enquanto tocamos material que nos recorda as bandas que adoramos. Não pretendemos reinventar a roda. Atenção, isto não é uma farpa a quem ambiciona ser original e a quem almeja sucesso, de uma positiva forma. Mas há imensos grupos que são péssimos. Ser péssimo não é a nossa cena.

Ao ouvir o EP “Under The Heptagram”, é óbvio que a produção melhorou, se a compararmos ao longa-duração “The Seven Fat Years Are Over” e ao split com os Gehenna. Estes dois são, vá lá, rudimentares, nesse aspecto. Foi algo intencional?

Nem por isso. Tudo fluiu naturalmente e gravámos esses registos na casa de um amigo. Quanto ao “Under The Heptagram”, ele foi finalizado num sítio diferente, mas não creio que soe melhor ou pior. É diferente. Todos têm um certo charme.

Olhando para alguns vídeos ao vivo, reparei que o Cedric Goetgebuer, guitarrista dos Rise And Fall, anda a tocar convosco. Faz parte da banda, agora? Teve alguma influencia no “Under The Heptagram”?

Nem sei bem. Apenas perguntámos ao Cedric se ele queria fazer uns gigs connosco, já que ele é um tipo cinco estrelas para se estar – além de ser um excelente guitarrista. Digo mais: ele fica todo coolno palco. Quanto ao futuro, quem sabe? Depende da nossa agenda e da sua disponibilidade. Nas gravações do “Under The Heptagram”, disse ao Cedric para aparecer no estúdio e gravar a guitarra solo sobre o riff principal da malha “The Gateway – aquela a que todos chamam “Intro”. Também fez uns petardos à Kerry King na “Burial Of Mankind”, pois guitarradas como aquela, todas sofisticadas, eu não consigo executá-las, nem que a minha vida delas dependesse.

Sendo esta a primeira vez que lançam originais desde 2010, porque motivo o EP é tão curto? Onze minutos… A sério?

É melhor demasiado curto do que demasiado extenso, certo? Bem, isto era para ser um split com os Pick Your Side, mas eles não estavam preparados. Quer dizer, não tenho a certeza do que aconteceu, mas lá acabámos por torná-lo num EP e estas são as malhas que na altura tínhamos à mão.

Ao ler que vocês escreveram o “The Seven Fat Years Are Over” em três dias, quantas horas foram necessárias para o EP? Aposto em quatro.

Não foi preciso tanto. Acho que a “The Gateway” e a malha homónima foram escritas em 30 minutos cada. Se bem que a última, a “Burial Of Mankind” consumiu-nos algum tempo. Andámos a ensaiar essa faixa durante dois anos. Mas, ei, só ensaiámos aí umas cinco vezes. Quero frisar que, cada vez que eu e o Nabbe [baterista] nos juntamos, o resultado é brilhante. É isso. Não precisamos de muito para sacar umas faixas incríveis.

Os Blind To Faith raramente tocam ao vivo e, mesmo estando associados à Church Of Ra, vocês nem foram com eles para a Rússia, em Setembro passado. Os concertos são pouco importante para vocês?

Não somos parte da Church Of Ra. São grandes amigos, malta talentosa, e o Colin [H. Van Eeckhout, vocalista de Amenra], tocou baixo nos nossos primeiros três concertos. Contudo, a C-O-R é um animal totalmente diferente, com uma visão sobre o mundo bem díspar daquela que partilhamos em Blind To Faith. Creio que somos um pouquinho mais pessimistas do que o resto das bandas, na forma como encaramos a sociedade e a plateia. Regista aí: nós não pertencemos a QUALQUER igreja.

Os concertos não são insignificantes, mas, pessoalmente, tendo tocado sem exagero uns mil concertos de hardcore nos últimos quinze anos, há pouco que me possas oferecer que me leve a um nível de entusiasmo capaz de me fazer ter uma agenda mais preenchida do que a actual. Só que, pronto, estar no palco e libertar a fúria durante 25 minutos é das coisas mais porreiras que há na vida. Mixed feelings.

Pergunta clássica: como é que a vossa ligação com a A389 surgiu? É curioso, nenhuma label europeia pegou no EP, mas nos Estados Unidos houve alguém que se lembrou.

Dom [Romeo, dono da A389 Recordings] é um cromo que gosta de investir dinheiro em bandas que não lhe retribuirão com dinheiro algum.

Vamos viajar um bocado no tempo e recordar a “R.J.”, malha do split com os Gehenna que tem como guest o Stéphen Bessac, vocalista de Kickback. Como é que essa amizade surgiu? Mantêm-se em contacto?

Nabbe mandou-lhe um e-mail há anos e, como ele curte da mesma música que nós, perguntámos-lhe se não queria entrar numa faixa desse split, mal acabámos de as escrever. Ele foi simpático o suficiente para aceitar e, pronto, aconteceu. Tempos mais tarde, demos uns gigs com os Kickback e o Nabbe ainda se mantém em contacto com o Stéphen. Curiosamente, eles convidaram-nos para um concerto em Paris este mês, mas por vários motivos e tretas tivemos de recusar.

E esse segundo longa-duração?

Está nas nossas cabeças. Só precisamos de nos reunir e deixar os riffs à solta.

Como bonita despedida, nomeiem os vossos serial killers favoritos.

O Diego, a Dora e todos os seus parentes assassinos.