Falar dos Black Rebel Motorcycle Club sem falar no seu hino Whatever Happened To My Rock And Roll e sem repescar a velha estória, na qual a banda de Peter Hayes e Robert Levon Been fez parte de um hype geracional, no princípio da década, que visou trazer o rock de volta às massas, apresenta-se quase como um lugar comum, e absolutamente inevitável. Depois do fenómeno, os BRMC parecem ter deixado de fazer sentido, e já não se enquadram em coisa nenhuma. Mas encaremos esse lugar comum, pegando-lhe pelo sítio mais apropriado – os seus cornos.

Mas falar dos Black Rebel Motorcycle Club é também não ficar quieto, acreditar numa força maior e acreditar que a revolução, a mudança e nossa “arma de escolha” estão ali ao lado, mesmo pertinho de um solo de guitarra ou de uma pianada que nos empurre para o lado negro – como eles – da força.

Lado a lado com os Strokes White Stripes, o conjunto originário de São Francisco, logo na sua estreia editorial em 2001, apelidado de “salvador do rock”, funcionou, juntamente com essas bandas, como uma espécie de antídoto para toda a suposta imundice que tinha assolado o rock nos últimos anos dos 90´s. E a imundice tinha rosto e nome – eram os Limp BizkitPapa Roach, e demais figurões do denominado nu-metal. Passada esta fase, o rock estava salvo e os Black Rebel Motorcycle Club eram já dispensáveis e puramente retro, sem nada de significante a oferecer às massas que supostamente tinham vindo salvar. Levite-se no entanto, novamente, na preposição – “pegar a coisa pelos seus cornos” -, afinal será que alguma coisa mudou?

Se calhar, não, pelas amostras de seguidores que continuam a afluir às salas de concertos, repletas. Mas será que isso interessa aos Black Rebel Motorcycle Club?: Salvadores do rock?! Eles são o rock!!!, e foi isso que na segunda-feira, na Aula Magna em Lisboa, e ontem, terça-feira, no Hard Club, no Porto, foram provar aos convertidos, aos mais cépticos, ou aos assim-assim. Dez anos depois, muitos caíram, mas eles continuam de pé, provocando, agitando, lançando farpas, corroendo, longe de hypes e das modas.

No Porto, os doismileoito tiveram a árdua tarefa de abrir as hostes para um público faminto de rock’nroll. Mas saíram-se bastante bem: com guitarras sujas, banhadas, em certos momentos, com afinação grunge (alguns toques dos vocais lembravam-nos, imediatamente, Eddie Vedder, dos Pearl Jam), ruidosas q.b., cravadas em delays, os doismileoito começaram-nos a levar até aos noventas, nome, aliás, da última canção que tocaram, confessando ser das suas favoritas.

Mas ambas as salas apresentaram, nos dois concertos, características comuns: um ambiente negro, étereo (em especial, no momento-alto do concerto do Porto, a interpretação sentida de Red Eyes and Tears, prolongada e psicadélica, como é, aliás, normal nas actuações ao vivo dos B.R.M.C. neste tema… mas já lá vamos). Se quisermos sumariar em palavras, ver um concerto dos californianos é sentir o peso de um rock sabido, maturado ao longo dos anos, entre tatuagens, guitarras, muitas guitarras e muitas malhas. O público, esse, é díspar: desde meninas na casa dos vinte vestidas de negro (algumas choram), cinquentões amantes do rock’n’roll, todos estão ali juntos por uma causa: o rock. E o rock do bom.

No cabedal de Peter HayesRobert Been, e agora, a nova baterista, Leah Shapiro, e perante uma Aula Magna e um Hard Club quase, quase cheios, está uma viagem pela história mais profunda, e simultaneamente singela, de um estilo que teima não deixar amestrar-se por completo. Partindo do tempo tórrido e abrasivo das terras do sul dos Estados Unidos povoadas de escravos negros na ânsia da sua liberdade, com as devidas homenagens a Skip JamesBlind Willie Johnson ou Lead Belly; percorrendo o pós-guerra com a folk de Woody GuthriePete Seeger e Bob Dylan, com as devidas referências aos escritores beatniks como Jack Kerouac Alan Ginsberg; rodopiando nos anos 70 com o raw-rock de Iggy And The Stooges e o punk-rock de uns Sex Pistols The Clash; nasalando o incontornável shoegaze dos anos 80 dosJesus And Mary Chain My Bloody Valentine, mais o atmosférico espacial dos Spacemen 3; não esquecendo o cunho próprio dos BRMC com as camadas melodiosas e cavernosas engendradas pela guitarra e baixo; assim foi essa viagem.

Com Beat The Devil´s Tatoo lançado no corrente ano de 2010, era de esperar que muito do alinhamento fosse beber a essa fonte, e assim foi. Abrindo o concerto com War Machine, seguindo-se-lhe Mama Taught Me Better, foram ainda mais 7 canções do recente disco executadas, destacando-se Beat The Devil´s Tatoo, outro dos momentos mais sentidos, mais impulsionadores de força, Bad BloodAya Conscience Killer, um daqueles temas enormes e orelhudos, capazes de levar à loucura sem controle qualquer terráqueo.

Porém, há muito que os BRMC estavam em dívida para com o público português, pelo menos desde 2002 quando integraram o cartaz do Festival Sudoeste e desde 2004, quando visitaram o Minho, no Festival Paredes de Coura, – a suas únicas passagem por Portugal até esta dose dupla de concertos -, portanto seis anos, e ficar apenas pela mais recente proposta estava fora de questão, tendo a banda de ajustar essa conta antiga. Assim,  rituais e simbólicas, como não podia deixar de ser, canções como Red Eyes And Tears (a terceira do alinhamento em Lisboa e no Porto, alinhamentos, aliás, muito semelhantes nos dois concertos) ou Whatever Happened To My Rock And Roll fizeram a sua aparição mais nostálgica, mas ao mesmo tempo que coloriam rostos sabedores da sua intemporalidade intrínseca.

Weapon Of Choice e Berlin foram momentos sempre a andar, para recuperar dos mais intimistas que os B.R.M.C. também foram capazes de oferecer. Crê-se na salvação com estes dois temas, crê-se para um futuro para a música, mesmo que negro e cravejado em reverbs e em psicadelismo.

E se quase 20 canções não foram suficientes para saciar a fome e apetite dos presentes, com uma energia incrivelmente esmagadora, em Lisboa, os B.R.M.C. foram obrigados a regressar para um encore, no qual se ficou a saber, que há 40 anos atrás, foi na capital, onde os pais de Leah Shapiro se conheceram. Era, portanto, um aniversário, e a “luzboa” transformava-se numa cidade de amor. SalvationShadow’s Kepper Open Invitation, cumpriram o alinhamento do encore, perante um público completamente rendido à sonoridade-arma (Robert Been com o seu baixo representou isso na perfeição – empunhando-o de facto como se o instrumento fosse como tal) da malta do cabedal negro, motoqueiros viajantes da mais fina-flor da tradição rock descomprometida com o “ser da cena”.

Já no Porto, para o encore, ficou uma Spread Your Love , precedida de uma música acústica e com o baixista, sentado num palco sozinho, sob luzes azuis e escuras.Shadow’s Keeper, como em Lisboa, também ficou para o final, em toque de adeus emocionado, endiabrado e sentido.

Com mais de duas horas de actuação (ou actuações), músculos incansáveis, imunes a cãibras, distensões ou dores musculares, firmes e hirtos que nem sábios epicuristas, comprometidos com um estado de ataraxia, onde os instrumentos absorvem as mágoas do corpo bem como as da alma, libertando os fantasmas e medos, aliviando toda a matéria para ser interiorizada com paz de espírito absoluta. Os Black Rebel Motocycle Club são uma das referências da década, sendo um confronto live and loudcom estes um momento singular e alienígena. É para sonhar, ganhar motivação e montar uma banda, enlouquecer e mandar as rotinas à fava, amar e afogar-se na paixão… E enquanto o aroma a cabedal permanecer no ar, nem as mãos mais encortiçadas deixarão de afirmar com os seus movimentos: “o rock não precisa de ser salvo, precisa apenas da disciplina da dedicação descomprometida – I gave my heart to a simple chord; I gave my soul to a new religion”.

Vamos pôr os nossos casacos de cabedal, os óculos de mota e desarpar numa viagem por esse mundo fora, para sermos rebeldes e únicos, como os Black Rebel Motorcycle Club.