O sludge há muito que virou moda. No lote de bandas que são invariavelmente propaladas quando o assunto é esse nicho lamacento, os Black Cobra raramente são trazidos à mesa da discussão. Permanecem numa penumbra injusta, mas, a pouco e pouco, começam a receber alguma luminosidade – nem que seja reflectida pelos Mastodon, que insistem (e bem) em levá-los consigo Estados Unidos adentro.

Esta serpente negra norte-americana é bicéfala e tem os dentes afiados. Bicéfala já que se divide por dois músicos: Jason Landrian, criador da banda em 2001 e guitarrista/vocalista, e Rafael Martinez, baterista que acompanha Jason desde 2005; de dentes afiados pois o seu sludge não é meigo, nem se faz valer pelas texturas e atmosferas post-metal. Se acham atractiva a combinação que os High On Fire conseguem fazer usando thrash e o stoner/doom, então os Black Cobra são um prato que deve ser servido na vossa mesa o mais rapidamente possível.

Principalmente agora com Invernal. Este quarto disco dos norte-americanos dedica-se, tematicamente, a explorar a ideia de um desastre nuclear na Antárctica e o som executado assume-se como a banda sonora ideal para a tragédia. Se nos outros álbuns, dos quais Bestial e Chronomega são pedras preciosas, o ritmo perpetrado se situa entre o mid-tempo doomster e uma escalada a pique para altas rotações, em Invernal os Black Cobra metem prego a fundo e executam algumas das mais rápidas faixas de toda a sua discografia. É uma abordagem frívola, impetuosa, down-tuned e em que não é descurado o capítulo técnico – bastará ouvir uma Somnae Tenebrae para entender que o duo norte-americano se aperfeiçoou nos últimos anos. Pode parecer (e é) estranho ter uma banda que se passeia pelo sludge/doom com declarada tenacidade e apetite voraz sem se munir de um baixo; contudo, eles executam as suas tarefas com tamanho peso que esse factor rapidamente se evapora da nossa mente.

Em relação ao desplante que têm para derreter a face de quem os escuta, estamos conversados – caso restem dúvidas, há sempre uma Obliteration pronta a encerrar a questão. Mas falar de Invernalé falar também de uns Black Cobra que, afinal, até estão aptos a enriquecer um disco seu com umas passagens capazes de nos recordar aquela montanha russa sensorial que os Kylesa sempre imprimem nos seus álbuns. Abyss é um raro atrevimento melódico na carreira dos Black Cobra e só demonstra que este par de jarras barbudas ainda tem muito combustível no tanque. Aliás, dez anos depois de a coisa ter arrancado, parece que só agora a brincadeira realmente começou. Abram alas.