Foi perante um Passos Manuel lotado, com um número considerável de pessoas a preterir os lugares sentados para abanar a cabeça em pé, que os Black Bombaim apresentaram o seu Jerusalem, dividido em quatro partes como a mítico disco de Sleep que iria dar na épica Dopesmoker. A versão dos barcelenses não fica tão a oriente e concentra-se, antes, na ilha de Rodes, na Grécia, onde os colossos nascem e onde se justifica o título do álbum Titans.

Maior do que nunca, o power-trio teve direito a uma introdução deGhuna X, como acontece em D, onde também participa Tiago Pereira, senhor dos riffs de Aspen e que também pisou o palco do cinema portuense. Este foi, de resto, o problema maior da actuação dos Black Bombaim, que jogaram a cartada dos convidados imediatamente nos primeiros 15 minutos, fazendo parte da música que encerra o novo álbum e passando de imediato pela recta final de A, onde Jorge Coelho faz o interlúdio.

Passam 24 horas desde a passagem dos Black Bombaim por Lisboa. O sentimento, ou o que resta da noção que temos dele, é de devastação e abuso físico. O sistema auditivo há muito que se foi e o pescoço é das poucas testemunhas que restam como indicador daquilo que se passou: uma noite infernal, uma viagem (ou trip alucinante, se preferirem), comissariada por quem não olha a meios para violentar populaça e que carrega o peso titânico daquela que é, sem margem de dúvidas, a melhor banda portuguesa em palco. Uma onda de som, uma vaga titânica de riffs e distorção, uma máquina de peso, doentia e arquitectada num universo kosmiche, bem mais carregado de ópio que o universo de Álvaro de Campos.

Ouvido em disco, Titans é, por si só, um colosso, mas em palco é uma ameaça à saúde. Bem-vinda e desejada, é capaz de invocar e transportar Hades para qualquer sala onde toca. A fortuna, sábado, calhou à ZDB onde as temperaturas elevadas se mostraram como o acompanhamento perfeito para a concretização daquilo que o trio barcelense é: a súmula das experiências de um stoner. DeSabbath a Sleep, sem esquecer OM, Karma to Burn, Wooden Shijps e Earthless. Os colossos, arrastados violenta e directamente do Olimpo, invadiram a cidade para surgir em palco com a megalomania megalítica que se pretendia e um balanço “étnico” que contagia pescoço, tronco, mente e membros da mesma forma.

Shela mostrou a pertinência dos teclados no roque enrola, Tiago Jónatas emprestou uma dimensão espacial que nada deve aos Hawkwind, Jorge Coelho enganou-nos a todos com uma macia distorção e Pedro Sousa fez esquecer o saxofone badalhoco e sujo de Steve Mackay para transformar, por momentos, o concerto no momento mais demente e grave das nossas vidas.

O ponto alto da actuação na Invicta, ainda assim, fez-se difícil em chegar, mas não tardou meio concerto para que o riff mais duro do novo Titans, em estúdio cantado por Adolfo Luxúria Canibal, arrancar uma sessão de cabeceamentos consensual, em sinal de aprovação da fibra que o palm-mute da guitarra dá à música.

Em contraponto, na cidade de Lisboa, momentaneamente transformada em Rodes, devassada pela fúria colossal, o excerto cantado por Adolfo quebrou vértebras, mas foi Side B (também conhecida por África, em Saturdays & Space Travels) que levou aZDB à loucura e euforia e que mostrou, se dúvidas houvesse, que os Black Bombaim têm um pequeno-almoço reforçado, digno dos deuses, mas que dificilmente será feito à base de simples hidromel.

E só pode ser assim, porque a facilidade com que moldam, trabalham e transformam o som – entidade colossal e selvagem por excelente – é feita com a facilidade e a prática de um operário especializado e experienciado nestas andanças. Foi amor senhores, foi amor à bruta e ansiamos por mais.