Passaram-se quase seis longos anos desde que, a 10 de Abril de 2009, os Bizarra Locomotiva subiram ao palco do esgotadíssimo MusicBox para a apresentação de “Álbum Negro”. Neste sentido, só mudou a dimensão do feito (o RCA é significativamente maior) visto que à hora de começo de Bizarra Locomotiva o anúncio da porta ostentava um orgulhoso sold out. Num outro sentido, é hoje bem diferente uma certa fauna tribal que aparece nos concertos deBL como se se tivesse apercebido algures em 2009 que o rock de cariz industrial afinal estava mais bem representado pela Lisnave do que por qualquer execrabilidade teutónica. Talvez estivessem debaixo do chão…

O secretismo que envolveu “Mortuário” fez com que a esmagadora maioria dos presentes fosse não à procura da primeira descarga ao vivo do novo trabalho mas também da primeira oportunidade para se inteirar daquilo que é o mais recente trabalho da banda. É certo que saíram quatro faixas antes do concerto (ou cinco para os mais intrusivos no dia-a-dia da banda) mas a maior parte do mastodonte de quase oitenta (!) minutos era um mistério.

Para abrir a noite: La Chanson Noire. Referência incontornável da canção (im)popular portuguesa e fã confesso da Locomotiva,Charles Sangnoir apresentou-se desta feita a solo. Aliás, é assim o formato mais burlesco de LCN, quando se apresenta simplesmente com voz e piano.

Assim, em formato quase best-of, assistiu-se em três quartos de hora a uma performance que não importa a repetição impressiona sempre pela honestidade e singularidade. Muita coisa ficou de fora – salta à cabeça a extraordinária “Cornucópia” de “Cabaret Portugal” – dada a já considerável prolificidade do projecto mas momentos como “Água Benta”, “Valsa de Escombros” ou “Bordel de Lúcifer” são já bem conhecidos de quem vai seguindo a carreira de LCN.

Sobre este último ponto resta dizer algo mais generalista sobre La Chanson Noire: independentemente de sempre ter merecido menos atenção do que a que deveria, há algo de inegavelmente precioso e puro na forma nua como uma voz e um piano vãotocando e fugindo no conceito de canção sem nunca o verdadeiramente abandonar. O resultado é algo que tem tanto de aparentemente acessível como de profundamente inacessível, nomeadamente pela forma única como a palavra em jeito denavalha afiada vai cortando pelo meio das multidões inertes, como era o caso da presente. Como dito na abertura do concerto aquando da cover de “Hollow Hills” de Bauhaus: “So sad”.

Após a viagem interior de Chanson Noire, era tempo para o motivo pelo qual o RCA se encontrava já com uma (habitual) mini-guerra pelos lugares da frente do palco: era tempo de desvendar “Mortuário”. Foi de resto, com um combo de “Na Febre de Ícaro” (faixa inicial do álbum) e da faixa título que se abriram as hostilidades, sendo a primeira um monstro rastejante que se vai insinuando pelo meio de um crescendo de maquinaria pesada que explode definitivamente pela batuta do maestro Miguel Fonseca e que ameaça tornar-se desde já em mais uma bandeira da banda.

Dado o pontapé de saída com as mais recentes agressões, foi tempo de revisitar o passado. A dissonante “Gatos do Asfalto” visitou o ícone “Bestiário” já depois do recuo ao “Ódio” com o caos de “Buraco Negro” e o iconoclasta “O Desgraçado de Bordo”. No entanto a noite era mesmo de material novo e foi assim que a habitual postura castigadora de Rui Sidónio deu lugar à mais introspectiva “Foges-me Em Chamas” e aquela que aparenta ser claramente a faixa mais acessível do novo trabalho “Segredos Ferrugentos” e, que não fosse o muito particular registo do líder daBL, e poderia passar por uma versão em anfetaminas de um certo anticristo americano que varreu os anos 90.

A acalmia durou pouco e foi interrompida com a brutalidade crua de “Apêndices”, única visita ao primeiro trabalho da banda que celebrou em 2014 o vigésimo aniversário. Embora os arranjos já sejam bem diferentes desse trabalho e perfeitamente integrados na lógica do som de BL pós-Álbum Negro, o efeito de devastação continua a manter-se e a transformar a plateia num mar de corpos massacrados pelo vendaval sonoro. O facto de “Egodescentralizado” ter mantido a fasquia da intensidade quase no mesmo nível fez destes momentos os mais conseguidos do concerto. Teria sido ainda mais assim caso não tivesse um corpo estranho irrompido pelo palco adentro qual pop-up do Noddy no nosso blu-ray de “Breaking Bad”…

A forma acabou por regressar com o sempre venenoso “Cavalo Alado” e que antecedeu mais alguns temas novos, dos quais se destaca “Sudário de Escamas” onde mais uma vez se percebe que a BL se dá tão bem com faixas arrastadas e apocalípticas como se dá com verdadeiros hinos de espírito rock&roll como é o caso de “Escaravelho” e que encerrou provisoriamente a actuação.

O encore improvisado na hora trouxe aqueles que são os momentos mais altos do agora penúltimo álbum: “Procissão dos Édipos” e “Ergástulo”, este último cantado em plenos pulmões um pouco por toda a sala num coro arrepiante. A repetição de “Mortuário” (a faixa) mostrou que o arsenal tinha sido todo esgotado até à próxima estação.

Se quase qualquer desculpa é boa para presenciar Bizarra Locomotiva, um álbum novo é, convenha-se, uma das melhores. Como em todos os trabalhos da máquina bizarra há que absorver todos os jeitos e trejeitos de mais um bicho indomável, e preferencialmente ao vivo.