Os mestres Binary Star regressam com um EP comemorativo do universo que os viu nascer: o underground que abalaram em 2000, quando cuspiram realidade no já clássico Masters Of The Universe. Celebram agora os quinze anos de existência com seis faixas originais.

Dupla de rappers dotadissímos: One Be Lo e Senim Silla, naturais do Michigan, conheceram-se enquanto cumpriam pena no Hiawatha Correctional Facility. Neste sítio tornaram-se amigos, traçaram as linhas de pensamento que viriam a pôr em prática, estudaram os meandros da indústria músical. No activo desde 1998, lançam no ano seguinte Waterworld, disco que um ano mais tarde viria a renascer em Masters Of The Universe, onde o conteúdo lírico e rítmico saiu valorizado por uma nova roupagem instrumental a cargo de One Man Army e Decompoze.

Um verdadeiro disco de rap: bombo, tarola e um conjunto de bons loops; estes ganham ritmo nas palavras dos MCs e não o contrário; liricamente, transborda conteúdo: rimas maioritariamente incidentes em temas de forte teor social e político, em críticas mordazes e corrosivas, com muitas farpas também dirigidas à industria musical e religião.

Obteve considerável buzz nos circuitos rap underground norte-americano, sendo ainda hoje considerado um disco indispensável neste meio. Porém, a dupla afastou-se pouco depois –  conflitos criativos firmaram a decisão de dar continuidade a projectos a solo.

Além dos seis originais, o EP vem acompanhado de mais quatro faixas, que transitam de Masters Of The Universe (New Hip-Hop,Slang Blade, Glen Close e Conquistador). Um EP que celebra quinze anos de existência do duo vem também homenagear os muitos seguidores que há tanto esperavam por novas cenas; premissa expressa a partir da primeira faixa: NoitavO trata-se da palavra ‘Ovation’ escrita ao contrário, o loop faz juz ao trocadilho e parece – também ele – estar a tocar ao contrário. Love is Love, com um sample bem chill out e uma percussão funky por cima, traz-nos o seguimento temático da faixa inicial e One Be Lo e Senim Sillaem grande forma, como de costume.

Big Bad Wolf faz-me imaginar uma mistura entre Slang Blade eMasters of the Universe, faixa que baptizou o anterior disco, onde o ritmo de um loop de um baixo e de uma guitarra funky funky style copula, em sequências rápidas, com samples de voz e variações de bateria.

Uma óptima antevisão para a melhor faixa desta EP: Thumper aka the Caped Crusader aka the King James Diversion, um enorme título para um enorme som, com o tema mais sério deste EP. Um belo e melodioso loop de piano onde sopra ocasionalmente uma voz feminina: ambos vão chorando alinhados a uma percussão ritmada e minimalista. A letra relata a exclusão social e racial que nasce dos súburbios, onde a inexistência de oportunidades e o dinheiro fácil despoletam em exemplos reais e anónimos que One Be Lo e Senim Silla vão dissertando.

Sexta faixa: Autocons interlude dá por encerrada a comemoração, com breve faixa instrumental, e, neste momento, ressaltam duas pequenas conclusões. Em primeiro lugar: isto soube a muito pouco, mesmo; segundamente: tantos anos passados e nada se alterou quando estes dois se juntam para fazer rap. Espera-nos ter esperança que a terceira faixa – Wait – seja um sinal subliminar de que podemos aguardar por um álbum de Binary Star num futuro próximo. Com tantos anos, e este pequeno aperitivo, receptividade não faltará, e, como o isto anda, temática tão pouco.