Bill Callahan actuou em Portugal diversas vezes e em distintos momentos da sua carreira, mas há cerca de seis anos que não desabafava com o público português a sua mais recente alma filantropa.

“Dream River”, belíssimo álbum editado no ano passado, serve de remo para chegar ao inverno de algumas cidades europeias. Ontem esgotou o Cinema São Jorge e reluziu lágrimas que andavam há muito para saltar do Tejo. Hoje será a sensibilidade de quem vive junto ao Douro a ser avaliada.

Assistir a um concerto de Bill Callahan é comprovar que a sua voz gravada em estúdio é de uma grandiosidade que não se pensa ser possível ao vivo. Certamente que não restam dúvidas, a quem foi ao São Jorge, que se trata de uma voz inesquecível da história dorock/country/folk norte-americano. Acompanhado, e bem, por Matt Kinsey (guitarra eléctrica), Jaime Zuverza (baixo) e Adam Jones(bateria), todos sentados, Bill Callahan surge em pé para mostrar que tinha altura para ser jogador de basket mas que optou por fazer plateias depressivamente felizes. Os quatro mantiveram as posições, não sendo necessário que Bill tocasse guitarra e harmónica em pé do início ao fim. A altivez da sua voz bastava para se destacar. Por trás dos músicos foram projectados vídeos estáticos de Hanly Banks (mulher de Bill), que resultaram num agradável e coerente complemento visual à música de Callahan, embora fosse dispensável o vídeo alusivo a tourada, mesmo que seja irónico.

Era previsível que o concerto se concentrasse em “Dream River”, e o início aparentava que o músico não estava para surpreender. Tal como começa o álbum, com “The Sing”, “Javelin Unlanding” e “Small Plane”, foi como começou o espectáculo. Pensou-se que Bill Callahan iria apresentar as músicas tal como estão gravadas e pouco mais. Entretanto voltou a 2009 e tocou um dos temas mais bonitos da sua carreira, “Too Many Birds”, seguido do momento mais rockeiro da noite, “America!”, que resultou no primeiro grande aplauso. A partir daí as faixas de “Dream River” foram sendo alternadas com temas de discos anteriores, sobretudo “Apocalypse”. Dividindo o concerto em duas partes, (uma hora cada), foi pela última que penetrou na memória. As divagações eléctricas, tanto pelo blues e country como por vezes próximas do ruído e da distorção, com espaços harmoniosos para a voz se destacar na ausência dos instrumentos, criaram a atmosfera que deliciou o público, mesmo aquele que não exigia mais que ouvir alguns temas de Callahan. Músicas que descarrilaram no deserto de Mojave, remaram por rios sinuosos até à costa pacífica da Califórnia, e que acabaram a percorrer a “Winter Road” de “Spain and Portugal” para se saciarem com “Bacalau”, um improviso no fim do espectáculo a provar que Callahan está liberto e com húmor ironicamente comum.

Os treze temas apresentados, pelo modo como foram explorados musicalmente, levaram o concerto para duas horas sem direito a encore. No fim, havia vontade de entrar num táxi, pedir para colocar “Dream River” no leitor e viajar sem destino, simplesmente para usufruir das luzes citadinas e recordar aquela noite de conforto perene que terminaria no quarto do motel, imagine-se, a ler um conto de Sam Shepard.

Na primeira parte houve uma surpresa que incomodou grande parte da plateia, o que se revelou como bastante positivo. Tome-se atenção a Circuit Des Yeux. A rapariga de 24 anos entrou com a sua guitarra acústica e esperava-se que fosse tocar baladas folk.Nada disso! Apresentou música nevrálgica e com uma emoção inusitada, que vai desde melodias tremendamente cantadas a berros distorcidos. No final conseguiu arrancar muitos aplausos de quem gostou.