Desobedecer-lhe, encostá-la à parede para lhe arrancar tudo o que tem nos bolsos, pô-la seminua de vontades, mostrar-lhe os braços descarnados e o pescoço em ferida, trocar-lhe o egoísmo do passado pela verdade que há no momento – a memória rende-se ao esquecimento. A meta é deslembrarmo-nos de tudo, trancarmos as palavras num gavetão, sermos mutistas sectários, afónicos ou omissos, respondermos «olha, já nem me lembro», quando nos perguntam «então, como é que foi?». Ser um solipsista de poltrona, um vivant de silêncios, o frugal que esquece em vez do prolixo que se lembra. Estar com Ben Frost é abdicar do direito à narração, deixar a palavra à porta como se deixa um guarda-chuva, renunciar por nossa honra à nostalgia.

Confiamos-lhe bocados de realidade, atribuímos-lhe o privilégio à abdução no nevoeiro. Longas barafustadas de fumo que se apropriam da audiência como uma cavalaria se apropria de território. Frost é o industrial, o operário, o clínico de oficina que nos destranca a pele para o cateter e o bisturi; uma intervenção meta-cirúrgica num bloco operatório de strobes, as válvulas cardíacas que se substituem logo ali pela arritmia ciborgue. Frost é o portageiro de sensações nos graves de “Venter”, o romanticida abstracto quando “No Sorrowing” parece descolar, o sábio utilitário que faz “Híbakúsja” rosnar de pavor e morte. Um inquisidor ao serviço do desconforto, um assalariado na folha de pagamentos da distorção, um agente duplo entre girondinos e montanheses pelo gozo do terror.

A apneia oftálmica do flash, da fractalidade geométrica que se projecta em frente, da diagonal de vapor que suspira amplificada, do chiaroscuro que espalha pó de ferro fila a fila, da dupla hélice que faz “Nolan” mudar de voz na guitarra – o voto de oblívio foi feito para agora ser cumprido.