Depois de alguns anos a perscrutar salas, a escutar melodias tão estranhas como pegajosas, acabamos por formar algumas premissas como sendo certas. Na passada sexta-feira, ainda antes de o trio britânico subir ao palco, jazia em palco, majestosamente, um órgão Moog. Dali, é fácil partir para a pop ou para a electrónica, ou estacionar algures no meio e trabalhar com o krautrock teutónico.

A premissa não é inteiramente falsa; afinal, os Beak assentam realmente a sua fórmula no krautrock, com texturas negras e ritmos irrequietos com tanto de onírico como de pesadelo. São muito mais que a morrinha melancólica que Geoff Barrow ajuda a desenhar nos Portishead – ainda que também aqui exista uma voz que é simultaneamente bênção e linha guiadora – e chegam-se à frente com um toque de bizarria e um espectro de solidez surpreendente, conseguido às custas desse pilar fortificado que é o baixo.

Mas apesar de tanto “Beak” como “>>” serem reinterpretações bastante rigorosas e satisfatórias dos escritos dos Can e dos NEU!, falta-lhes o nervo que imprima dinâmica e tranquilidade ao trio. Se o baixo de Billy Fuller saía portentoso e sempre na hora, já Matt Williams parecia perdido, procurando instintivamente pelo sinal do irrequieto maestro Barrow. A música não saiu inquinada, mas aplicou-se uma aura de ensaio ao que se queria como um concerto, deixando público e banda em desconforto. Apenas um exercício de maquinalidade forçada tornava possível distanciarmo-nos da falta de comunicação para assim nos focarmos em temas como Spinning Top, Deserters, ou as sublimes Iron Action/Pill eBattery Point (apresentadas em encore) e assim viajar por um autêntico ecossistema garrido movido ao ritmo do baixo.

E a verdade é que esse esforço acabou por compensar, ajudando-nos a perceber que o krautrock foi pensado para o palco e não para a aguarela solitária de um disco. É que aqui e ali há uma espacialidade muito peculiar, invocada pelo uso do delay, do ruído e da distorção. Pequenos pormenores que nos fazem querer descobrir as deliciosas nuances que dão um toque único aos Beak.

Seja a harmonia frágil e etérea que paira em todas as músicas, é o replicar do repicar de um violino com uma baqueta nas cordas da guitarra, é o uso de circuitos fechados e ruidosos… O uso sábio de autênticos estímulos auditivos que apesar da falta de coesão humana nos prendem até ao fim numa escalada tântrica em direcção a um clímax introspectivo de pura descoberta. Não foi o caminho mais fácil, como nunca é. Mas a gentileza e o cuidado com que os Beak se empenham para deixar as tais nuances a descoberto, à espera de serem apanhadas por quem está do outro lado, fazem-nos querer saber mais daquele som intrigante que nasceu e na Alemanha e que agora é reinterpretado um pouco por todo o mundo. Apesar da falta de nervo, conseguimos perceber que o krautrock fica bem na Inglaterra fria e húmida. E que como tudo o que se estranha e depois entranha, ficamos à espera de mais.