Quando, há cerca de um ano, o vocalista e guitarrista Tyondai Braxton decidiu abandonar os Battles, podiam-se imaginar várias alternativas: o fim da banda, a modificação radical da sonoridade ou a aposta na continuidade, com o risco de, sem um dos elementos fundamentais, o resultado poder ser uma cópia menor do que tinha sido feito no passado. Quando se ouve Gloss Drop, não ficam dúvidas de que a opção foi a última, mas com resultados inequivocamente interessantes.

Africastle é um belo ponto de partida e tem, desde logo, os principais condimentos do som típico dos Battles: fundo maquinal / robótico algures entre os King Crimson e os Kraftwerk, repetição matemática desvairada e cadência rítmica impressionante. Daqui em diante, desde o viciante Futura, às percussões com travo étnico de Dominican Fade, passando por Wallstreet, uma espécie de épico rock feito num laboratório de Marte, comprova-se a ideia inicial de que, pelo menos nos instrumentais, o experimentalismo específico do projecto americano permanece incólume e inspirado.

Quanto aos temas com vocalização, importa dizer que o mestre britânico Gary Numan ou Kazu Makino, dos Blonde Redhead, se integram perfeitamente no universo Battles. Pode-se argumentar que, no caso da japonesa, é pena que não traga para aqui alguma da melancolia etérea da sua banda de origem, mas o que se ganharia em ecletismo, poder-se-ia perder em coerência. Já emSundome, Yamantaka Eye dos Boredoms leva, com o seu tom tribal e sinistro, a sonoridade dos Battles, já longe de ser fácil, a um novo patamar de freakalhice (a comparação com a versão instrumental do tema não deixa dúvidas). Contudo, o destaque maior não pode deixar de ir para o single Ice Cream, com a colaboração vocal do chileno Mattias Agayo. É o mais próximo que a banda alguma vez esteve da pop veraneante e, depois do improvável culto em torno do fabuloso Attlas, tem tudo para ser um dos grandes temas da temporada (e o vídeo é tão surreal, quanto bom).

Juntando tudo, os Battles podem não ter já a frescura e a novidade do disco de estreia e dos profícuos EP’s, mas, mesmo sem Braxton e com ligeiras adaptações sonoras (algumas delas com traços de evolução), fizeram um digníssimo sucessor deMirrored.