Lentamente, de som em som, as músicas de Barn Owl impõem-se à nossa atenção. Ouvir o duo norte-americano não é tanto um exercício de atenção como a audição dos seus parentes do drone revela ser; pelo contrário, e utilizando a ideia do novo longa-duração, não custa, em nada, perdermo-nos no olhar fixo, estratégico e calculista que a coruja nos apresenta. Sempre lentamente.

O EP Shadowland não foge a esta regra e, desde os primeiros segundos de cada uma das suas três músicas, a calma de espírito, quase meditativa, com que o psicadelismo dos Barn Owl se desenvolve acaba por ser a própria matéria das nossas sinapses. E o corpo agredece o descanso – eventualmente acusa a ressaca da audição dos pequenos samples de sintetizadores, que funcionam de fundo para a precisa colocação das guitarras. A faixa homónima, nesta perspectiva, acaba por ser tântrica, mais longa do que o EP todo, apesar de ser a música mais curta; a sua melodia, quase oriental, consegue ser pesada o suficiente para a banda de doom mais arrastado, mas tem a beleza ideal para a banda indie mais lamechas.

Shadowland vale por si, pela sua capacidade de se insurgir na sua negritude, sempre através da calma glacial que caracteriza os Barn Owl; mas é, também, uma premonição arrepiante para Lost in the Glare, o longa-duração que não tarda a suceder a Ancestral Star, do ano passado. Não sei se o fim-do-mundo chega em Outubro, como insiste Harold Camping (pela terceira vez, certamente falhada), mas tenho imensas certezas de que os Barn Owl estão em forma e a preparar um novo grande álbum. Shadowland é uma prova de fitness para preguiças completamente vitoriosa.